Apresentação

O CASO CALIGARI terá como ponto mais alto da sua programação uma exposição coletiva de arte cinemática que preencherá os vários gabinetes da Solar — Galeria de Arte Cinemática. Cada artista convidado apresentará uma obra numa sala, obra que tem por fonte, inspiração, ressonância ou referência o filme "Das Cabinet Des Dr. Caligari", aí incluindo toda a sua pré e pós história, da produção à crítica, das biografias dos seus criadores à materialidade do seu suporte: todo o caso Caligari, portanto.

Esta exposição coletiva compõe-se por obras na maioria originais, resultando de uma abordagem específica tanto ao espaço da galeria como ao marco do cinema Cinema Expressionista Alemão. Todos os artistas convidados mantêm uma relação com qualquer um dos ramos de atividade da cooperativa Curtas Metragens CRL, ou até com vários, quer seja pela parte do festival, da agência ou da programação da própria galeria: Daniel Blaufuks, artista plástico que trabalha fotografia, vídeo e cinema, integrou a Competição Nacional do Curtas já por duas vezes e a programação da Solar com a exposição “Viagens com a minha tia” em 2009; Eduardo Brito, integrou também, já por três vezes, a Competição Nacional do Curtas, é representado pela Agência da Curta Metragem com os filmes “Penúmbria”, de 2016, e “Declive”, de 2018, e colaborou em vários projetos da Curtas Metragens CRL incluindo uma residência artística da Solar, que concluirá no próximo ano; Reiner Kohlberger, artista, performer e realizador alemão, tem vindo a participar com uma certa regularidade na Competição Experimental do Curtas desde 2008 e integrará, este ano, a programação Stereo com a performance “Brainbows”; Jonathan Uliel Saldanha, músico, compositor e artista, integrou a programação Stereo do Curtas em 2018, com um espetáculo resultante de uma residência artística com a norte-americana Moor Mother, para além da performance na Solar, paralela à exposição “Ruins/Rites/Runes” da exposição de Ben Rivers e Ben Russell, em 2015.

À exceção da proposta de Jonathan Uliel Saldanha, que contudo ensaiará uma nova fórmula, em dois canais vídeo e som surround, para uma obra sua intitulada “Anoxia”, todos os artistas apresentarão obras inteiramente inéditas, criadas a propósito, numa total diversidade de abordagens que vão desde a exploração da instalação vídeo em três canais, no caso de Eduardo Brito, com a obra “Curiosidades do Gabinete (cada história é sempre um remake de outra história)”; a um ensaio vídeo de longa duração, da autoria de Daniel Blaufuks, “From Caligari to Jud Süss”, que contrapõe o filme que serviu de mote ao seu oposto, “Jud Süss”, de 1940, obra que foi fruto da muito eficaz propaganda Nacional-Socialista antisemita; a mais uma obra original de Rainer Kohlberger, “DDDM”, que trabalha os limites da parafernália tecnológica, do vídeo e do som, e, ao mesmo tempo, os da perceção, da reação física, intelectual e emocional do espectador.

A exposição propõe-se celebrar o filme, cuja produção decorreu há precisamente um século, realizado por Robert Wiene e escrito por Carl Meyer e Hans Janowitz, com o título original e completo "Das Cabinet Des Dr. Caligari – Filmsschaupiel in 6 Akten", que constitui um marco incontornável da História do Cinema. Rodado no ano de 1919, nos estúdios Lixie-Atelier, em Weisensee, Berlim, Alemanha, teve estreia mundial naquela cidade, a 26 de fevereiro de 1920, no cinema existente na Marmorhaus. "O Caso Caligari" é, assim, uma exposição coletiva que assinala o centenário da obra de Wiene, partindo da premissa de a homenagear, pela criação contemporânea entre a imagem cinemática e o cinema expandido. São quatro os artistas convidados para desenvolver e apresentar trabalhos desta mesma natureza, de um território contíguo ao do Cinema, mas que pode ser perspetivado, também, como o das Artes-Plásticas. "O Caso Caligari" será o ponto de convergência de quatro trabalhos sobre uma obra maior do cinema expressionista, uma forma de potenciar a criação contemporânea a partir de uma relação de possibilidades infinitas que o elemento referenciador e as suas ressonâncias estabelecem. Mas será também uma forma de atualização da premissa de Lotte Eisner quando, em "O Ecrãn Diabólico", escrevia "o expressionista não vê, tem visões". Que visões cinemáticas serão então (e ainda) possíveis a partir de "Das Cabinet Des Dr. Caligari"?

Entre as atividades complementares previstas constará a realização de uma mesa-redonda em torno do filme, abordando o expressionismo cinematográfico e do seu tempo, com a participação de Daniel Ribas, investigador, programador e crítico de cinema, enquanto moderador; Abílio Hernandez Cardoso, professor aposentado de Literatura Inglesa e História e Estética do Cinema, com um amplo trabalho de investigação e de palestras na dimensão do Cinema; António Roma Torres, crítico de cinema, autor de obras literárias sobre cinema e de peças de teatro, médico psiquiatra; e Nuno Faria, professor, curador, diretor artístico do Centro Internacional das Artes José de Guimarães, de 2013 a junho de 2019, e atualmente do Museu da Cidade do Porto. Um filme-concerto complementará as atividades paralelas e integradas no 27º Curtas Vila do Conde. Em estreia absoluta, uma comissão ao compositor-intérprete, Tiago Cutileiro, explorará a composição contemporânea para instrumento e eletrónica, com recurso a soundscapes berlinenses. Finalmente, será de salientar a realização de uma visita guiada, quarta-feira, dia 10 de julho de 2019, na presença da maioria dos artistas com obras em exposição e aproveitando, também, o afluxo de público ao festival.

© 2019 Curtas Vila do Conde