Natália Andrade


Within e Lascas são explorações de uma solidão feminina. Tentam criar uma ligação direta entre a audiência e as personagens, elas protagonistas, nós antagonistas. Elas, que escudam os seus sentimentos de medo e culpa, que por vezes nem a si se parecem revelar - e nós que os consumimos, olhando-as por dentro e por fora, necessariamente julgando-as. A pressão que as fecha em si mesmas não está visível dentro do espaço fílmico. As narrativas permanecem opacas, tentam ser mediadores neutros, porque os seus problemas são complexos - uma mulher que não consegue ultrapassar a sua própria condição mental para suportar os seus filhos pequenos, ou uma outra que considera aterradora a possibilidade de perder a sua carreira por causa de um período atrasado. Para eles não é oferecida uma solução, simplesmente é oferecida a personagem, difícil de se empatizar, que age melhor ou pior, mas sempre dentro de um contexto.
Os temas de género e da doença mental ligam-se com frequência ao meu trabalho - nascer mulher e viver com ansiedade tornam-nos incontornáveis. No entanto, o que mais me fascina nestes temas não é tanto o impacto concreto e direto que a sociedade tem nas mulheres. Muito mais me fascina como indiretamente esses impactos as tornam hostis a elas próprias, fechadas num ciclo interno de julgamento, de dificuldade de expressão. As ideias para as histórias saem sempre de algo que me aconteceu, ou que aconteceu a alguém e que me contaram, e de como estas histórias vêm rodeadas de julgamentos. Contadas por mulheres, a mulheres, sobre coisas que todas vivem, mas tantas vezes sem empatia, mesmo para consigo mesmas.
Within foi o meu filme de licenciatura, um projeto mais pequeno do que Lascas, o filme de mestrado. Excetuando a belíssima narração da australiana Ruth Game, Within foi um projeto a solo. Animado frame a frame em 2D, mistura uma linha simples e fina, o branco opaco da personagem e texturas padronizadas a partir de colagens. Este estilo das colagens é algo que tenho experimentado através dos anos, partindo de imagens de revistas e repetindo-as até elas se tornarem numa mancha mais abstrata. O grão das impressões e os significados pré-existentes em cada imagem enriquecem as histórias, trazem consigo outras associações - um pouco como o fazem as palavras.

Lascas teve uma equipa um pouco maior, dentro da escola, por ser um projeto mais ambicioso - um filme de cerca de dez minutos que mistura stop- motion com animação 2D. Os cenários foram construídos numa proporção relativamente grande, para que a câmara se pudesse movimentar livremente dentro deles, criando um grau de informação suficiente para suportar um visual realista. Na altura das “filmagens” havia pequenos recortes das personagens em cartão para criar o foco e a composição dos planos. Numa fase seguinte adicionei digitalmente as personagens em 2D sobre as imagens fotografadas, e animamos a partir daí. Este embate visual entre as personagens e os cenários representa a dificuldade delas em encaixarem-se no local onde estão, em relacionarem-se com ele e umas com as outras. A dificuldade de uma imagem 2D atravessar um cenário em stop-motion espelha a dificuldade das personagens atravessarem o espaço entre elas para interagirem de uma forma direta. O mundo bidimensional, neste filme mais associado a um panorama psicológico, vive em permanente tensão com o mundo físico, fotográfico, mais ligado ao mundo real.


Biografia

Nasceu em Braga, em 1992, e passou a primeira parte da sua vida entre Braga, Vila do Conde e o Porto. Natália estudou Artes Plásticas, Pintura, na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e Comunicação Audiovisual, Multimédia, na Escola Artística de Soares dos Reis; durante este tempo participou em várias fanzines de banda desenhada e ilustração independentes, bem como em algumas exposições coletivas. Durante os últimos anos viveu em Budapeste, onde pôde aprofundar os seus conhecimentos teóricos e técnicos de animação, na Moholy- Nagy University of Art and Design. Os seus filmes passaram por festivais em todo o mundo, incluindo a Animateka na Eslovénia, o Seoul International Cartoon and Animated Film Festival, na Coreia do Sul e o Womanimation nos EUA, bem como o CINANIMA, a Monstra, o Caminhos do Cinema Português e o Curtas de Vila do Conde, estes em Portugal. Hoje em dia, Natália vive no Porto, onde trabalha como freelancer em animação, escreve e desenvolve os seus próximos filmes.

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