Pedro & rock’n’roll

A Patti Smith viu um Picasso numa visita a um museu com o pai e percebeu o que era a arte.

Não se pode deixar de respeitar alguém que prescinde de uma carreira convencionada para se imergir num mundo que não seria o seu.

Engenheiro dizem uns. Pareceu-me difícil, por tudo que acompanhei, que a engenharia fosse suficiente para a sede de vida do Pedro.

Os encontros partiam de amizades inter-geracionais, mas uma coisa fui percebendo sempre: nada ressoava existencialmente neste putativo autor como a música e o seu contexto contemporâneo.

Pedro Magalhães procurou sempre o divergente na contemporaneidade: o universo do tuning é um escape da realidade que este autor soube testemunhar enquanto veículo de afirmações individuais num universo em que nada sobressai.

Energia. Energia do povo. Este é o grande medo burguês. Querem que nos identifiquemos, mas quando de repente aparece qualquer coisa que escapa ao universo expectável, todo um universo entra em derrisão.

Contrariando esse bem-estar, muitas foram as formas artísticas que se afirmaram: a música será uma da mais eficazes - um poeta famoso chegará a uns milhares, um músico chegará a uns milhões…(Bob Dylan ganhou um Nobel pela música ou pela poesia?)…

Energia…

Andy Warhol, a propósito dos primeiros concertos dos Velvet Underground e o seu EPI: se eles aguentam dez minutos, então tocamos durante quinze. Essa é a nossa política. Queremos que eles desejem sempre menos.

Tudo se resume a isso: energia. Contra os fantasmas burocráticos que se mascaram em artistas e produtores culturais da contemporaneidade, oponha-se algum tipo de energia.

Lamento a todos a quem falta poesia. Lamento a todos a quem falta inocência. Lamento a todos que durante mais de quarenta anos de democracia não souberam distinguir entre vida e projeção de carreira. É isto que define o nosso país, infelizmente.

Pedro Magalhães é um mergulhador na memória recente daquilo que nos define. 

E se não nos define, perdoe-me caro leitor, deixe-me aqui sem ressentimentos.

Se não perceber o que a música nos últimos cinquenta anos ajudou a definir os contextos das artes plásticas, então deixe a sala.

Se não perceber como alguém abdica de uma vida confortável para se dedicar àquilo que o uniu permanentemente, então largue isto que está a ler.

Pedro Magalhães decidiu dar um mergulho: milhares de horas de imagens em movimento, milhares de páginas de jornal. Tudo para se encontrar. Queiramos ser ou não testemunhas desse processo, não deixemos de lado esse conceito, sempre: energia!

  Entre o expressionismo abstrato - todos nos lembramos do Jackson Pollock-, e a queda do Kurt Cobain sobre as baterias que destruía no final dos concertos -, Pedro Magalhães presta uma homenagem singular e veemente ao Rock’n’Roll…destroy all monsters…

HIDDEN TRACK (Graphic Scores #1-#108) é a possibilidade de transcrição improvável do conceito de energia: uma putativa pauta musical deriva na banda sonora dos Evols, que a interpretam algures entre as Lessons for Guitar de Glenn Branca e as tergiversações do shoegazing de My Bloody Valentine, entre outros.

Música para não perceber o que a música é, e nesse sobressalto acordamos para uma realidade melhor.

Pedro é um incorporador de histórias. Alguns dirão que conhecem essa história. A esses digo, com a maior sinceridade; vivam-na, transmitam-na, porque se trata de arte, de homenagear, de recriar e de criarem momentos de suspensão do presente.

Porque a vida é isto: Patti Smith foi a um  concerto dos The Doors, olhou para o Jim Morrison, e achando-o um pouco apalhaçado – demasiado convencido de si próprio – pensou que um dia gostaria de ter a presença dele num palco; a  Patti Smith cantou pela primeira vez num contexto em que se declamava apenas poesia. Eletrificou a coisa. Para espanto de muitos.

Lou Reed queria ser escritor. Levou, na adolescência, choques elétricos porque os pais achavam que o rapaz era esquisito. Vingou-se com os Velvet Underground e, sobretudo, com o Metal Machine Music, em 1975. Querem frequências electroestáticas ou lá o que seja, levem com isto.

Pedro Magalhães assume o tempo como perceção do presente. Alguns, com tempo e paciência, também o poderão assumir: porque não se trata exclusivamente de uma questão estética…tantos equívocos andam por aí.

Energia…como todos nós uma vez na vida sentimos, vivemos…ou não.

Daqui a vinte anos falamos.


  Miguel von Hafe Pérez

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