Perfeito! A expressão na cara de Matthias é uma mistura de horror fingido e preocupação. Com ambas as mãos a taparem a boca e os olhos esbugalhados diz ?Não acredito.? É um gesto aprendido e reaprendido, mas ele inventa-o de novo cada vez que o faz. Fá-lo outra vez, pela primeira vez. Acabei de lhe dizer que só fui à praia duas vezes na minha vida. Matthias aprendeu o que custa ser mãe (a prova está por todos os seus filmes) por isso antes de me levar à praia insiste em comprar um guarda-sol gigante numa loja cheia de estatuetas de Jesus. Tal como o avant-garde na arte, qualquer religião tem o seu kitsch. Depois de passarmos pelos Cristos feitos em série (Cristo - a palavra é feita de carne e depois de gesso), Matthias desperta a superstição ao abrir o guarda-sol na loja e diz que vamos ter de nos contentar com aquele. E aqui vamos nós. A imagem de Jesus (o corpo esfolado e pregado, horas antes de morrer, nas palavras de João ?e ele está no meio de nós?) lembra-nos que os bronzeados saudáveis de uma geração são o cancro da seguinte (tem de se ter cuidado na praia). Mas quando lá chegamos encontramos Christoph já estatelado num pedaço de areia fresca, determinado em cobrir a sua palidez do norte da Europa com uma camada de tarde portuguesa. Tal como Matthias, Christoph formou-se na Braunschweig Art Academy, treinado pelas críticas letais de Birgit Hein, ela própria constituindo uma metade do casal fundamental da vanguarda alemã. Cinco anos antes, Matthias recebeu um telefonema do Museu de Arte Moderna de Oxford para produzir qualquer coisa para uma exposição sobre Hitchcock. Matthias telefonou logo a Christoph e juntos partiram numa viagem cinematográfica que já produziu meia dúzia de filmes que fizeram subir a parada do género ?found footage?. A clareza e a precisão dos seus filmes é quase insuportável, fundada na recolha rigorosa e em gestos rimados. Um dueto de cuidado e beleza exigente Tal como os artistas clássicos dos séculos passados, a sua preocupação fundamental é a de fazer retratos. Que aspecto tem? O que é que este rosto nos diz que já vislumbrou o seu próprio fim e regressou? Mas não estão empenhados em desenhos de modelo nem em observações da natureza, em vez disso tecem retratos a partir das imagens que nos rodeiam. Estas imagens permitem-nos ver estes excertos de Hollywood bem como os euro rostos que povoam o imaginário de um continente, reproduzidos numa linha que tem nas nossas caras um ponto de fuga. Elas dão vida a estes fantasmas de forma a podermos vê-los de novo, pela primeira vez. A mobília é uma imagem. Estas mãos são imagens de mãos. Este olhar recorda-me que o meu olhar também é uma imagem, custou-me oito dólares numa maratona de cinema, e vi como a heroína se desfez quando a sua última esperança saiu porta fora. Eu não a vi, eu engoli aquele olhar, é meu agora, é a minha cara. Estas imagens transformaram-se na minha cara. Imaginem os sinos em dia de casamento: Matthias o poeta nitro-lírico e Christoph o cirurgião digital. Eu conhecia Christoph do seu excerto de King Kong, Release ? Fay Wray amarrada e em c-c-c-c-convulsões, o corpo palpitante, numa apresentação que ele recria a partir de centenas de samples em micro-loops tirados de apenas quatro cenas. (Quem diz que não há prazer na nova ordem, se bem que a que custo?) O que poderia este über VJ trazer aos devaneios infantis de Matthias: o seu par de elegias sobre a SIDA (um psicodrama filmado em Portugal e um diário processado à mão chorando a morte de um amigo); a fantasia erótico-marinheira (filmada, como todo o bom sexo, com terror), que encontrou em Brasília a imagem de uma utopia exausta que é totalmente sua, despejando tudo numa última obra-prima antes de se atirar exausto para o tapete do festival e receber a sua justa recompensa. A maior parte dos artistas continuam a encher frames muito depois do seu tempo ter passado, mas o hábito impele-os a gerar novas imagens, sombras de gigantes, que só parecem grandes com a iluminação certa, vistos com condescendência pelos amigos. Matthias encontra uma forma de ultrapassar tudo isto, ou por outras palavras, faz batota, para ele já tudo devia ter terminado, já cá anda há tempo demais, a beber do lugar profundo de onde estes filmes refinados provêm. Chegou a altura de ele descer ou desenvolver uma dependência mórbida de farmacêuticos. Mas este cosmopolita de aldeia é esperto e através do trabalho sério consegue ter a intervalos quase regulares acessos de boa sorte. Um telefonema fortuito de Oxford com uma oferta de um palco maior e algum dinheiro comprar tempo. Segue-se rapidamente outro telefonema para Christoph e marca-se um encontro. Começam a trabalhar transformando 40 filmes de Hitchcock em seis capítulos densamente compilados. De certa forma, em apenas 45 minutos, conseguem não deixar nada para trás. Agora que os espectáculos de antigamente foram reduzidos para caberem nos ecrãs domésticos, os déjà vu do cinema estão cada vez mais disponíveis para serem revistos de forma pessoal. Depois do cadáver, os funcionários das mortuárias chegam para remontar o corpo. Matthias e Christoph deliciam-se com o seu trabalho, quem confiaria num cirurgião que não gosta de fazer incisões? Que não sente cada incisão como se fosse feita no seu próprio corpo, e sorri? São violadores de sepulturas, necrófilos e amantes. A forma como tocam nestes filmes faz-me sentir como um voyeur (o que me deleita). Às vezes de forma brusca e quase à estalada, às vezes tão levemente que apenas uma ínfima alteração da imagem ocorre depois de trabalhada por eles. É assim que acariciam o seu rosto adormecido, um bilhete perdido, um combóio que se aproxima. Quando o artista termina, eu tenho a oportunidade de tomar o seu lugar, tentando não reparar que cheguei tarde demais. Eles preparam a sessão, ou melhor: põem-me no meu lugar. Dão-me posição. Em Play, o duo dinâmico junta imagens de espectadores, filmagens das reacções a uma cena que nunca se materializa, excepto no teatro ou na galeria de arte, onde se torna óbvio que estas caras estão a olhar para nós. Somos presenteados com uma imagem de nós próprios. Que tal estamos? E ele está no meio de nós. Play (intitulado assim pois os espectadores que vemos estão a assistir a uma peça de teatro) liga-se ao mistério da terceira pessoa, da multidão. Não é o eu gosto mas sim o gostamos. Não o vejo mas o vemos. O cinema, pelo menos num dos lados do ecrã, mostra sempre uma cena de multidão. Ambos os realizadores são alemães. Já tinha dito? Alguma vez terei deixado de o fazer? A geração dos seus avós pertenceu ao Reich, foi há pouco tempo, tão pouco que quase lhe podemos tocar e a histeria colectiva do Reich espreita por detrás de cada grande plano de Cary Grant. Qual é a relação dos muitos e do um (Godard: ?o Estado sonha com o um, o indivíduo com o dois?)? A urgência por detrás desta questão é particularmente alemã, o que torna a montagem precisa sem ser demasiado limpa - os cirurgiões sentem cada incisão. Vemos o público à espera, preso e pouco à-vontade, o que é preciso é que um deles se separe da multidão uniforme, que alguém se declare, represente e permita que a multidão se unifique em aplausos (ou ridículo), deixando que se torne nela própria, o indivíduo tem de se afirmar. O que é normalmente tido como contradição (o indivíduo versus a multidão) acaba por ser os dois lados da mesma moeda, parte da mesma peça. A multidão torna o indivíduo (a estrela) necessário. Na linguagem do cinema: primeiro uma panorâmica depois o grande plano. O que é que nos resta senão aplaudir a multidão que torna o indivíduo possível? Primeiro: Nós somos. E só depois: Eu sou. A estrada é soalheira e radiante e os quatro prosseguimos com facilidade, Esma e eu, e Matthias e Christoph. Nunca os vejo separados, empenhando-se no lazer com a mesma dedicação que trazem para os seus lares computadorizados. Passamos os arcos de Vila do Conde, uma cidade velha e nova, sede do festival de cinema mais agradável do mundo, onde os filmes só começam à tarde, dando-nos a oportunidade de gozar a praia como deve ser. Tomámos o nosso pequeno almoço perfeito, o nosso good morning America matinal, agora são horas de ir à praia. Christoph Girardet. Já tinha ouvido falar dele, claro, até já tínhamos passado alguns momentos juntos num festival alemão qualquer a engolir cerveja e cigarros antes de regressar à sala à pressa para ver mais novidades passarem à história rapidamente. Mas esta foi a primeira vez que nos pudemos sentar para uma conversa demorada. Tal como qualquer pessoa com o coração despedaçado e que seja profundamente triste, está sempre a fazer palhaçadas. É uma máquina de piadas. E curiosamente, tal como Matthias, parece ter saído de um filme americano dos anos 50. Nenhum teria o papel principal mas poderiam desempenhar o papel ao grupo de detectives duros (mas de coração sensível), que desrespeitam a lei para a manter. Encolho-me debaixo do chapéu de sol, tentando não deixar nenhum raio de sol perdido atingir-me, transportado pelo riso de Christoph até ele fazer uma pausa para se pronunciar sobre a obra de Matthias AC (antes de Christoph), a famosa série de sucessos marginais. Vira-se para mim já sem qualquer dúvida, as palavras do oráculo estão à espera, ? os filmes mais antigos de Matthias tinham erros.? Matthias, a ouvir a conversa, concorda com um aceno de cabeça. Sim, o tribunal decidiu, cometeram-se ?erros?. Só um alemão poderia dizer semelhante coisa. O escrutínio implacável do seu próprio trabalho (as suas vidas emocionais, as suas pequenas e frágeis esperanças) permite-lhes sonhar com um passado com ?erros? identificáveis, e sem dúvida alguma, corrigidos. É óbvio que o sonho secreto de cada um deles, incapazes sequer de o confessar um ao outro, é o de produzir a mais alemã de todas as peças de arte: a peça de arte perfeita. Adoro-a, é perfeita! O seu génio (ou sorte, o que acaba por ser igual) é que a sua felicidade triste apaga os pontos cegos de cada um, ao mesmo tempo que poupam um ao outro o sonho da perfeição. No ano seguinte regresso sozinho à praia de Vila do Conde, procurando vestígios do lugar onde estivemos e conversámos mas não resta nada, procure o tempo que procurar. Isto alivia-me mais do que devia. Mike Hoolboom

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