Vila do Conde, Girardet e Müller Nuno Rodrigues O Curtas Vila do Conde tem já uma assinalável história de cumplicidades com Matthias Müller e Christoph Girardet. Tudo começou em 1994, quando o Festival estava na sua segunda edição, e apresentou pela primeira vez em Portugal o segundo filme de Müller. Este era ainda um jovem cineasta a desenvolver os seus primeiros passos num cinema de vocação experimental, que começava a tornar-se um frequentador assíduo de festivais de cinema do género. O filme era Home Stories, um mini melodrama, construído através da montagem de sequências de filmes de Hollywood das décadas de 50 e 60, no qual o realizador desenvolvia uma reflexão poética sobre o medo. Um ano depois Müller visitava pela primeira vez, pessoalmente, Vila do Conde. Apresentou então em competição internacional o filme Alpsee, que se afigurava como a confirmação de um dos mais promissores cineastas da década de 90. Tratava-se de uma colagem de footage de filmes domésticos da década de 60, através dos quais Müller construiu uma narrativa alusiva às memórias da sua infância. Este filme revelou a evolução de um cineasta que, abandonando as experiências estruturais dos primeiros filmes, ingressou num cinema narrativo, inquietante, com francas alusões a cineastas como Hitchcock e Buñuel. Nesse ano viria a ser aclamado pela crítica e a receber o grande prémio do Festival. Recordo-me de um episódio que demonstra o impacto então obtido - o cineasta José Álvaro de Morais, depois de terminada a sessão na qual o filme foi exibido, no Auditório Municipal, confidenciava ter acabado de ver uma obra-prima, verdadeiramente surpreendente, o momento mais alto do Festival! Estes factos acabaram por proporcionar uma empatia entre o cineasta e o Festival, contribuindo para a organização de uma mostra integral dos seus filmes em 1996. 0 público português assistia pela primeira vez, em Vila do Conde, seguida de uma extensão organizada em colaboração com o Goethe Institut de Lisboa, à descoberta de um autor de grande rigor no uso da montagem no cinema através da utilização de found footage. A retrospectiva integrou um conjunto de cinco filmes anteriores a Alpsee, como The Flamethrowers e Sleepy Haven, nos quais desenvolveu uma gradual reflexão sobre as possibilidades da linguagem cinematográfica, nomeadamente através da sua articulação com a música, a que não foi alheio o intenso trabalho com o músico Dirk Schaefer. A meticulosa apropriação de material de filmes, ou de imagens do universo cinematográfico do cineasta, remetiam-no para um cinema onde o fragmento adquiria uma importância fundamental na capacidade de construção de novas narrativas e de novas sequências capazes de dar um novo sentido temporal aos seus filmes. 0 ano de 1996 correspondeu à afirmação do cineasta no plano internacional, facto que coincidiu com o gradual reconhecimento do festival de Vila do Conde. À vinda a Portugal para apresentar os seus filmes no Festival, e extensões do mesmo em Lisboa, não foi alheia a realização do seu sexto filme Pensão Globo exibido no Festival em 1997. Um poema sobre a ilusão do desejo e das suas consequências, filmado num quarto de hotel da cidade de Lisboa, onde Müller retomou alguns dos anseios visíveis no seu primeiro filme Aus der ferne, nomeadamente uma tendência autobiográfica para projectar os seus medos sobre o desejo e a morte. Vacancy, apresentado em Vila do Conde no ano de 1999, aprofundou uma tendência na obra do autor para a utilização do papel do narrador em articulação com imagens retiradas de home movies do dia de inauguração da cidade de Brasília. No ano de 2001, Matthias Müller regressou ao Festival para apresentar Nebel, um filme que retomava dois temas desenvolvidos nos seus trabalhos anteriores: a infância e a morte. Esta belíssima curta-metragem baseada em “Poems to childhood” de Ernst Jandl, resultou numa espécie de ode à infância, onde o cineasta descobriu e inventou imagens para as palavras de Jandl, sem pretender encontrar significados ou contar uma história. Numa tarde do 9º Curtas Vila do Conde, encontrei-me com Matthias na esplanada do Auditório Municipal. Aproveitamos para falar do passado, dos seus filmes e do nosso Festival, onde referiu ter encontrado um Festival mais forte em termos de programação. Apresentei-lhe algumas das nossas ideias para o futuro, nomeadamente o nosso objectivo de produzir um conjunto de filmes no âmbito das comemorações dos 10 Anos do Festival. Referi a nossa vontade em que ele fosse um dos cineastas a incluir no projecto, tendo Matthias prontamente respondido estar interessado, acrescentando que gostaria de fazer o filme com um artista com quem tinha começado a colaborar, Christoph Girardet. Meses antes tinha-nos enviado a sua primeira colaboração com Girardet, Phoenix Tapes, trabalho encomendado pelo MOMA-Oxford a propósito de uma exposição intitulada "Hitchcok and Contemporary Art". Este filme revelava um laborioso trabalho enciclopédico que, através da montagem e do exercício de repetição de gestos e imagens, construía uma verdadeira reflexão em cinema sobre o universo de Alfred Hitchook. Aproveitamos o convite efectuado pelo festival Videolisboa, para conceber uma programação de vídeos por grandes cineastas e incluímos o filme no programa desse ano. Era a descoberta do início da parceria de Müller com um autor ligado à vídeo arte e à apresentação de vídeo instalações em Galerias e Museus: Christoph Girardet Este artista, então verdadeiramente desconhecido para o Festival, tinha iniciado a sua carreira artística em 1991 e havia desenvolvido, até 2000, um conjunto de vídeos que recorriam, tal como os filmes de Müller, à utilização quase obsessiva de fragmentos e sequências de filmes. Denotava o mesmo fascínio pelo cinema, por coleccionar imagens, pela montagem, pelo fragmento e pela repetição na elaboração da linguagem cinematográfica. Este período marcou o início de uma parceria quase permanente dos dois autores entre 1999 e 2005, nos quais desenvolveram um conjunto verdadeiramente notável de trabalhos. Passaram a desenvolver trabalhos que aprofundavam a articulação de duas vertentes, a apresentação de filmes em salas de cinema e a concepção de obras destinadas a apresentação em galerias e museus. Esta fusão viria a enriquecer as qualidades dos dois e proporcionar a realização de uma série de trabalhos que os situava num território de fronteira com o cinema. O mesmo período marcou o início da ruptura parcial do Festival de Vila do Conde com uma linguagem convencional ligada à curta-metragem que dominou a década de noventa, e a abertura a um conceito de cinema mais livre em termos de narrativa e mais aberto às tendências experimentais. Foi então criada, no Festival em 2002, a secção Work in Progress e passaram a considerar-se novas formas de apresentação que não se circunscreviam ao espaço da sala de cinema. A apresentação de vídeo instalações de autores ligados ao Festival proporcionou o regresso ao evento de Müller, e a estreia de Girardet, através da apresentação dos seus trabalhos individuais Phantom e Scratch, respectivamente. Se o primeiro explorava o mistério e a fronteira, expressos através de uma série de sequências de um dos elementos de predilecção na obra de Müller, a cortina, o segundo, construído a partir de imagens de gira-discos, desenvolvia um dos aspectos marcante na obra de Girardet, o tempo e a repetição na articulação da montagem. Gerou-se então uma segunda empatia mútua, desta vez entre o Festival e Christoph Girardet. Ainda em 2002, a propósito da comemoração dos dez anos do Festival, ocorreu um dos momentos mais significativos e marcantes da relação entre o Curtas Vila do Conde e os dois cineastas: a concretização da realização do filme comissariado pelo Festival e parte integrante da série 10. O resultado dessa comissão foi a realização de Beacon, uma belíssima montagem de material filmado em , dez diferentes locais do mundo, ligados entre si pelo mar. Um desses locais é precisamente Vila do Conde, que Müller havia filmado durante as suas deslocações ao Festival em anos anteriores. Para tornar ainda mais rico este trabalho convidaram para escrever o texto do filme (narrado em voz- off) o cineasta canadiano Mike Hoolboom. A noite da sua exibição configurou um marco inesquecível, tendo ocorrido perante um auditório repleto e rendido à qualidade dos filmes de Matthias, Girardet, Miguel Gomes, Sandro Aguilar, Daníele Cipri e Franco Maresco (a totalidade dos autores da série). No ano seguinte Müller e Girardet revisitaram Vila do Conde, para apresentarem um novo filme, o qual viria posteriormente a ser premiado no Festival. Tratava-se de Manual, um filme construído a partir de footage de filmes das décadas de 50 e 60, retirado de sequências com aparelhos mecânicos como gravadores, monitores ou interruptores. Estes elementos eram magistralmente compostos através de loops e repetições em oposição a imagens de um rosto e umas mãos masculinas, criando uma espécie de pseudo drama. Finalmente 2004 surge como um ano de novos projectos e três novas apresentações em Vila do Conde. Breeze, um trailler realizado para a Vienalle, Play, uma narrativa recheada de dramatismo e suspense construído através de fragmentos de filmes com audiências, e Mirror, o único filme de Matthias Müller e Christoph Girardet cuja realização foge à lógica dominante do seu trabalho em conjunto ou individual. A sua construção não recorre à lógica de utilização de found footage como nos seus trabalhos anteriores. Trata-se de um filme realizado com actores e com imagens filmadas na íntegra para o efeito, através de alguns elementos formais que denotam uma certa inspiração no clássico O último ano em Marienbad, de Alain Resnaís. Provavelmente tratou-se do primeiro passo para uma viragem na obra dos dois autores ou então, talvez, apenas uma excepção a uma tendência obsessiva para revisitar e manipular imagens. Finalmente 2005 trouxe aquela que foi, até agora, a última das cumplicidades e a concretização de um velho sonho - o de organizar em Vila do Conde uma exposição de trabalhos realizados individualmente e em parceria pelos dois autores. O seu desenvolvimento foi um trabalho aliciante, visando conceber uma exposição que pudesse articular a apresentação de alguns dos seus mais recentes trabalhos (inéditos em Portugal) com um espaço com características nunca antes experimentadas por ambos - a Solar. A solução passou pela apresentação dos trabalhos em diferentes escalas, sem nunca recorrer a projecções de grandes dimensões. Passou também por respeitar os percursos e transparências da arquitectura para, através dela, explorar os ruídos e silêncios das obras apresentadas. E, como se tudo isto não fosse suficiente, Müller e Girardet decidiram conceber dois novos trabalhos para a exposição e estrear Ray. Agora que avançamos para este novo desafio da Galeria de Arte Cinemática, resta esperar que a concretização de Revisitations seja apenas o ponto de partida para outra nova série de projectos e cumplicidades...

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