Redução / Aceleração / Dissolução:
Notas acerca da cinematografia de Siegfried A. Fruhauf por Gerald Weber
Um grupo de operários move-se por entre caldeiras e tubos, perto da câmara; um segundo grupo cruza a imagem em segundo plano. O barulho monótono e moedor de uma máquina domina a banda sonora que acompanha o filme. O primeiro grupo reaparece, a cena começa de novo, uma e outra vez. A estrutura repetitiva é imediatamente reconhecível. Mas é apenas de forma gradual que nos vamos apercebendo que a cena é acelerada cada vez que a vemos, no início quase imperceptivelmente, e mais tarde de forma rápida. Com cada repetição, Fruhauf encurta o loop baseado num princípio matemático estrito. No final, o resultado destes Ballets méchaniques cada vez mais furiosos é a imobilização absoluta: uma imagem única e estática na qual qualquer movimento se torna impossível.
Fruhauf já tinha começado a negociar com os mecanismos do cinema no seu primeiro filme LA SORTIE (1998) feito aos 22 anos.
Neste filme ele trabalha com os mecanismos do movimento cinematográfico, baseado fundamentalmente no equívoco do olho humano, que é sujeito à ilusão de perceber o movimento quando é atingida uma certa velocidade na sucessão de imagens individuais.
O frame é, afinal de contas, o elemento mais pequeno de cada filme. Fruhauf leva-nos de volta a esta realidade com LA SORTIE. Não é coincidência que o título e assunto do filme se refiram ao primeiro filme da história do cinema, o pequeno registo de um minuto intitulado LA SORTIE DES OUVRIERS DE L?USINE de 1896. O cinema, com a sua mecânica, sempre foi um produto da era industrial. No entanto quando Fruhauf aborda os pioneiros do cinema, fá-lo sem nostalgia ou sentimentalismo: o seu interesse está no ?filme? enquanto princípio estético.
Fruhauf nasceu em Grieskirchen na Alta Áustria em 1976. Inicialmente estudou para ser vendedor industrial antes de iniciar os seus estudos na Universität für experimentelle visuelle Gestaltung (Universidade para o design visual experimental)em Linz em 1995. Um dos seus professores foi Peter Tscherkassky.
A confrontação com o aparato cinematográfico é um aspecto constante no trabalho artístico de Fruhauf. Ele segue assim a tradição da vanguarda (não só austríaca) do cinema, embora os seus métodos de trabalho sejam comuns a várias correntes. Por exemplo, ele segue muitas vezes um princípio métrico estrito de montagem e aceleração estática, fazendo assim parte da tradição do cinema estrutural.
Os seus filmes são subsequentemente criados na base de um conceito que ele desenvolve durante bastante tempo e que é cuidadosamente planeado. Por outro lado, ele também se dedica ao seu interesse na materialidade do cinema e à fragilidade da imagem fotográfica.
Enquanto série, os dois vídeos STRUCTURAL FILMWASTE. DISSOLUTION 1 + 2 (2003)combinam estes dois aspectos: a estrutura do filme e o seu material. Em DISSOLUTION 1, restos de filmes são montados em duas metades baseado num plano em série estrito enquadrado de forma a revelar as extremidades da película, os lugares onde a cola foi posta, as perfurações e as listras da película. No entanto as perturbações na imagem analógica são cada vez mais cobertas de imagens límpidas de vídeo e a imagem do filme dissolve-se em ruído digital a preto e branco. Como consequência, a Parte 2 é completamente destituída de imagens concretas ou reais e em vez disso apresenta-se como um remake digital do filme abstracto clássico de Peter Kubelka ARNULF RAINER (1960). Nessa obra, Kubelka reduziu a essência do filme às suas componentes mais simples: branco (= luz), preto (= ausência de luz), silêncio e ruído. No trabalho de Fruhauf, pinturas abstractas, geométricas e turbulentas emergem do barulho hipnótico das imagens de vídeo em meios-tons que surgem na horizontal e na vertical.
Os filmes deste jovem realizador austríaco costumam ser acompanhados de um comentário delicado e irónico. Enquanto que em LA SORTIE, o progresso industrial acelerado culmina na imobilização, em HÖHENRAUSCH/MOUNTAIN TRIP (1999), algo semelhante acontece. O filme é montado de acordo com a música tortuosa de um acordeão que faz feedback. Através de uma panorâmica virtual rápida, Fruhauf desconstrói o cliché dos postais das idílicas paisagens de montanha da Áustria. A paisagem das duas séries de postais que se ?espelham? uma à outra na horizontal, é crescentemente sugada para o ?meio?, ou seja, para o azul da faixa correspondente ao céu. A panorâmica sobre as montanhas acaba numa ?percepção? frenética.
Apesar dos trabalhos de Fruhauf terem tendência para procurar a abstracção, a referência primordial vai sempre para a imagem cinematográfica efectiva. Por vezes também seguem o caminho inverso como é o caso em BLOW-UP (2000). Neste filme, o material de base são dois frames de um filme educativo antigo sobre respiração boca-a-boca. Fruhauf transfere este conteúdo para o próprio filme. O realizador reanima o pedaço de filme de forma visível e audível. A reanimação, que inicialmente é limitada a uma pequena faixa, mais uma vez cresce até atingir o tamanho do ecrã.
Fruhauf também trabalha com material encontrado nos dois trailers (FRONTALE 2002, PHANTOMRIDE 2004), encomendados para a Diagonale ? Festival des österreichischen Films e para o Crossing Europe Film Festival Linz. Mesmo nestes trabalhos mais curtos, Fruhauf consegue condensar reflexões essenciais acerca do cinema: Em FRONTALE, sexo e crime, paixão e catástrofe como o impulso do cinema e em PHANTOMRIDE, a perspectiva espacial como a premissa do movimento em profundidade.
Juntamente com a mecânica do aparelho e a materialidade do filme, Fruhauf está interessado numa outra componente do cinema: a construção do olhar controlador, ou seja, o olhar da câmara e consequentemente o do espectador.
No seu trabalho mais recente, MIRROR MECHANICS (2005), que teve a sua estreia em Cannes na Semaine de la Critique, vemos uma rapariga a lavar um espelho com a mão de forma a conseguir ver a sua cara, a sua imagem reflectida. Esta cena é simultaneamente espelhada na imagem , dando origem a uma espécie de dupla projecção. O espelho sempre foi um dos temas preferidos do cinema experimental. Em última análise, as ideias fundamentais do cinema são de novo encontradas na imaginação e na qualidade incorpórea do espelho: ilusão, identificação e projecção. Em MIRROR MECHANICS, Fruhauf mostra-se preocupado com o reflexo do ?ver? no cinema, e com o olhar que desliza pelo ecrã, agarrando-se aos pormenores. Questões relacionadas com a identidade e a diferença também são abordadas no jogo de variações e camadas no reflexo da imagem.
O filme EXPOSED de 2001 pode ser visto em Vila do Conde como instalação. Este filme também é sobre o ver. A vista de uma cena de voyeurismo é ela própria divulgada como se fosse pelo buraco de uma fechadura. Pequenos campos rectangulares passam rapidamente pelo ecrã, revelando excertos da imagem: um homem que observa pelo buraco de uma fechadura uma mulher a dançar. Fruhauf duplica a situação mostrada e conduz o espectador à posição de voyeur, por assim dizer. É óbvio que Fruhauf estabeleceu o papel do espectador do filme como elementar assim que percebemos que os campos, que dirigem o olhar, são as perfurações da película de celulóide. Colocado de outra forma: aqui, é a parte da filmagem que normalmente não é visível ? pois fica de fora da janela da película ? que inicialmente nos permite ver. Traduzindo literalmente, ?expor? significa ?libertar? ou ?divulgar?. No entanto, em EXPOSED, o segredo da imagem não é exibido através de um número crescente de janelas. Acontece precisamente o oposto; a imagem dissolve-se gradualmente em branco, em luz pura.
Outro aspecto a ter em conta é que tudo aquilo que o cinema é pode ser reconduzido aos seus dois factores básicos: luz e movimento. O cinema é o instrumento correspondente com o qual, dentro de certos parâmetros mecânicos e ópticos, uma ilusão quase perfeita de movimento é produzida através de uma tira de celulóide, que por sua vez é previamente sujeita a certos processos fotoquímicos.
O movimento no cinema é, por sua vez, sujeito ao tempo e ao espaço.
Em REALTIME (2002), Fruhauf traz estes aspectos da luz e do movimento ao ecrã da forma mais simples que se pode conceber. A luz do sol é a única luz a iluminar o ecrã de REALTIME. A trajectória do sol é o único movimento perceptível. O espectador experimenta nada mais que o nascer do sol em tempo real. A banda sonora grandiosa de Jürgen Gruber pode ser encarada como uma referência a 2001: ODISSEIA NO ESPAÇO de Stanley Kubrik.
E não seria uma obra de Fruhauf se não existisse uma reviravolta escondida mesmo neste filme decididamente minimalista e conceptual.
Em REALTIME, o critico de cinema Austríaco Robert Buchschwenter vê o regresso do potencial cinematográfico ao seu ponto de origem ? e também uma insinuação perspicaz das possibilidades que podem ser concebidas novamente (infinitamente) a começar neste ponto.