No decurso da √ļltima d√©cada temos vindo a assistir √† prolifera√ß√£o de pe√ßas art√≠sticas em v√≠deo, nas quais √© patente uma reciclagem ou, pelo menos, reutiliza√ß√£o, de conte√ļdos de som e imagem pertencentes a uma mem√≥ria emprestada. S√£o filmes nos quais se desenvolvem novas misturas de elementos pr√©-existentes que, em termos mais latos, denotam processos gen√©ricos de reciclagem.
No campo do cinema e das artes visuais que implicam movimento esta pr√°tica √© conhecida como found- footage. A g√©nese deste conceito, de forma mais sistem√°tica, foi fortemente impulsionada pelo n√ļcleo de cineastas nova iorquinos, underground, do ‚ÄúAntology Film Archive‚ÄĚ, dos quais foram pioneiros Bruce Conner e Ken Jackobs, ambos membros da corrente que veio posteriormente a ser conhecida como structural cinema. Exemplo disso √© o emblem√°tico filme de Bruce Conner - A Movie (1958) -, cujo t√≠tulo remete para o anonimato dos autores das imagens colhidas e remontadas. O uso de found footage foi igualmente utilizado, enquanto pr√°tica cr√≠tica no cinema situacionista franc√™s, tanto por Maurice Lemaitre em Le film est dej√° comenc√© (1951), como por Guy D√©bord em Critique de la s√©paration (1961) ou La Societ√© du Spectacle (1973). Nestes tr√™s filmes, √†s imagens apropriadas de diferentes proveni√™ncias √© associado um coment√°rio cr√≠tico em ‚Äúoff‚ÄĚ, atrav√©s do uso de intert√≠tulos, de incrusta√ß√Ķes directas na pel√≠cula ou de dissocia√ß√Ķes de desfasamentos das bandas de imagem e de som.
O cineasta austríaco Peter Kubelka, autor de filmes como Mosaik im Vertrauen (1955) ou Unsere Afrikareise (1966), levou ao nascimento do Metric Cinema, pólo essencial do cinema experimental que, entre outras tendências, consolidou e sistematizou distintas práticas de utilização do found-footage, bem como a busca da essência do cinema através da elevação do frame a elemento primordial da linguagem cinematográfica.
Os seus filmes e teorias viriam a contribuir duma forma determinante para o aparecimento de alguns dos mais relevantes cineastas experimentais da actualidade.
Entre eles, os discípulos Peter Tcherkassky (autor da exposição Frame by Frame, comissariada para a Solar em 2005) e Martin Arnold (o qual se encontra presentemente a preparar uma exposição para o mesmo espaço).
Deste √ļltimo destaca-se a realiza√ß√£o da triologia composta pelos filmes Pi√©ce touch√©e (1989), Passage √† l`acte (1993) e Alone (1998), na qual disseca um conjunto de sequ√™ncias do cinema cl√°ssico de Hollywood. Atrav√©s da metodologia de an√°lise do Frame a Frame, Arnold procurou a inexplorada ess√™ncia do m√©dium nas mensagens secretas entre cada imagem dos filmes, criando um novo cinema de desintegra√ß√£o que, de algum modo, nos remete para a vis√£o fragmentada do mundo operada pelos pintores cubistas no in√≠cio do s√©culo XX.
Ao longo das duas √ļltimas d√©cadas, o cineasta austr√≠aco Gustav Deutch - respons√°vel pelo filme/instala√ß√£o Film ist 1-12 - e a dupla Italiana Yervant Gianikian & Angela Ricci Lucchi, desenvolveram um conjunto de importantes trabalhos baseados na reutiliza√ß√£o de imagens de arquivos (maioritariamente disponibilizadas por cinematecas de todo o mundo), nos quais, atrav√©s de uma met√≥dica cataloga√ß√£o de imagens an√≥nimas ou de autor, essencialmente documentais, reinventam novas reflex√Ķes sobre a Hist√≥ria, o mundo ou a universo das imagens em movimento.
Os pr√≥prios museus e galerias, atrav√©s de pr√°ticas evidenciadas por alguns artistas, come√ßaram a apresentar nos √ļltimos anos filmes e instala√ß√Ķes, onde o uso de found-footage ganhou uma aura especial proveniente da reutiliza√ß√£o de imagens e sons de momentos ou obras marcante do cinema americano dos anos 40 e 50. Exemplo disso s√£o obras como 24 Hours Psycho de Douglas Gordon (1993), Remake de Pierre Huyghe (1995), Phoenix Tapes da dupla Matthias Mueller & Cristoph Girardet (1999) ou, ainda, Video Quartet de Christian Marclay (2002).
Mais recente ainda √© o fen√≥meno de apropria√ß√£o de imagens retiradas de arquivos caseiros em v√≠deo VHS ou em v√≠deo 8 (sistemas actualmente considerados obsoletos devido ao aparecimento do v√≠deo digital). Um dos artistas contempor√Ęneos que tem vindo a recorrer de forma continuada a este tipo de arquivos √© Ben Callaway (Bristol, 1978), o qual utiliza o v√≠deo como medium exclusivo do seu trabalho.
Utilizando imagens encontradas e apropriadas de origens muito distintas (desde vídeos promocionais, até documentários anónimos), submete-as a uma laboriosa manipulação e a uma cuidada montagem. Deste modo constrói pequenas narrativas ficcionais que se revelam tão intrigantes, quanto visualmente fascinantes, dando início a um novo processo interpretante das imagens através da sua reciclagem.
A maior parte das práticas recentes associadas ao found-footage têm vindo a tornar-se mais usuais devido aos vídeos digitalizados que, um pouco por toda a parte, correspondem à montagem dos filmes de família ou de repórteres anónimos, filmes estes rodados, nas décadas de 60 ou 70, em formato de Super 8 ou de 16mm. São peças que se tornaram possíveis sobretudo graças à recém-adquirida facilidade de manipulação do vídeo digital, da popularização dos meios anteriormente reservados a uso profissional.
Em Portugal, tanto no cinema, como nas artes pl√°sticas com recurso √†s imagens em movimento, dificilmente encontramos autores cuja obra esteja manifestamente ligada a uma pr√°tica continuada associada ao Found‚ÄďFootage. Destaque por√©m para um trabalho met√≥dico com algum amadurecimento nesta √°rea ‚Äď os v√≠deos de Daniel Barroca (Barulho 1 e 2), ou trabalhos espor√°dicos no contexto da obra de alguns artistas como de Jos√© Ma√ßas de Carvalho (To President, 2004). Entre uma nova vaga de autores nacionais que come√ßam a afirmar um novo trajecto, baseado na reutiliza√ß√£o de material filmado reciclado, encontram-se ainda Pedro Maia (Vila do Conde,) e Hugo Olim (Funchal).
Ambos têm vindo a desenvolver arquivos pessoais de imagens em movimento, os quais criam em Pedro Maia um fascínio pela aquisição e digitalização de velhos filmes super 8 com o tema da família e do retrato como pano de fundo. Já em Hugo Olim é possível detectar uma obsessão pelas imagens ruidosas dos mais variados tipos de registo de vídeo amador e pela falibilidade da sua perenidade enquanto representação perfeita da realidade.
Com este projecto original, concebido para o espa√ßo da Solar ao longo dos √ļltimos meses, procuramos proporcionar aos dois criadores o desenvolvimento de trabalhos aut√≥nomos que, dentro da identidade das pr√°ticas evidenciadas por cada um deles, potencia caracter√≠sticas comuns aos dois, traduzida num fasc√≠nio coleccionista pelas imagens em movimento e uma pr√°tica que associa a reciclagem destas com a montagem e o som.
Esta exposi√ß√£o d√° continuidade ao protocolo estabelecido entre a ‚ÄúCurtas-Metragens CRL‚ÄĚ e o Instituto Polit√©cnico do Porto, segundo o qual √© anualmente organizada na Solar uma exposi√ß√£o dedicada a jovens criadores contempor√Ęneos formados no IPP. Pedro Maia e Hugo Olim, com carreira emergente na √°rea do v√≠deo, nas novas pr√°ticas do v√≠deo-jaming e performace som e imagem, exp√Ķem pela primeira vez, em simult√Ęneo, com um conjunto de instala√ß√Ķes v√≠deo originais, que convergem numa reflex√£o sobre a mem√≥ria e a falibilidade das imagens em movimento: um olhar sobre as fragilidades dos suportes anal√≥gicos e digitais, numa nova perspectiva que se reinventa, atrav√©s das possibilidades de re-interpreta√ß√£o operadas pelo uso e manipula√ß√£o de Found ‚Äďfootage.

José Nuno Rodrigues
Director do ‚ÄúCurtas Vila do Conde ‚Äď Festival Internacional de Cinema‚ÄĚ e Coordenador Art√≠stico da Galeria Solar

© 2022 Curtas Vila do Conde