“A place where the unknown past and the emergent future meet in a vibrating soundless hum”
Instalação vídeo – DVD vídeo PAL 4:3, cor, som, 8 min 17 seg, ciclo

"Caminhando em torno do cedro do Príncipe Real, foram percorridas circunferências com diferentes distâncias de aproximação. Sendo em simultâneo filmada a própria árvore. O vídeo foi depois acelerado de forma a tornar imperceptível o silêncio entre cada passo formando assim um som contínuo. Como resultado, a entidade natural adquire e manifesta características de vórtice visual e sonoro que magnetizam a nossa atenção. Uma frase de William Burroughs tornou-se no título."

Carlos Godinho


Algumas árvores conseguem escapar à voraz capacidade das populações de tudo transformarem em lenha. Estes seres de grande porte, seculares, passam então a pertencer à categoria de seres únicos, mitológicos, sendo acerrimamente defendidos pelas populações que as circundam. O seu porte não só é garantia de subsistência, proporcionando sombra, água ou alimento, como a sua idade as torna testemunhos vivos da edificação das próprias aldeias, da sua historia e cultura. Como o presenciou Kapuscinski nas suas viagens por África é à sombra destes colossos vegetais que as sociedades se desenvolvem e a tradição dos povos se perpetua. É sob as suas copas que se ramificaram os sistemas políticos e sob a sua sombra que as grandes histórias são contadas.
Em todo o planeta existem aldeias, vilas e cidades, que se desenvolvem em torno de uma árvore, cerne das mais diversas cosmogonias, formas vivas que espelham as mais diferentes culturas.
Apesar da escrita ter em parte afastado estas arvores do seu papel fulcral, ou seja de local de transmissão da oralidade, a sua presença ainda atrai grandes contadores de histórias. Em Lisboa existe um destes seres que pela sua idade e forma se posiciona como epicentro cultural da cidade. Trata-se de um cedro, plantado no Príncipe Real, que há um século expande a sua copa circular, estranhamente horizontal. Este centro vegetal de mais de vinte metros de diâmetro, é o ponto onde ainda se encontram os grandes contadores da cidade, aqueles que ainda dominam os ritmos da narrativa oral, ou seja, os realizadores de cinema.
João César Monteiro, João Botelho, Manuel Mozos e Daniel Blaufuks, são alguns dos nomes que gravitaram e gravitam em torno do Cedro, mas só alguns chegam ao seu centro. Atraídos pela árvore, exercitam e perpetuam o testemunho verbal.
A peça de Carlos Godinho “A place where the unknown past and the emergent future meet in a vibrating soundless hum” é o primeiro estudo sobre a força centrífuga emanada pelo Cedro de Lisboa. Tal como Wallace Clement Sabine (pioneiro da acústica contemporânea) conseguiu fotografar a invisibilidade dos ecos, Carlos Godinho conseguiu captar em imagem a força indisível deste vórtex.
O vídeo leva-nos vertiginosamente ao centro fazendo-nos sentir a coluna vertical de energia pura, inefável, da cidade.

Alexandre Estrela


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