Impressão lenticular a partir de três fotografias, três impressões fotoquímicas manuais em papel de sal de prata, 2008

CAFÉ NO CINEMA I Com 17 anos de idade, em 1949, Carolina Ferreira foi servir para a casa do sr. Adualdo Gonçalves de Azevedo, conhecido amador de teatro, que administrava o bar do Cine-Teatro Neiva. Contou-me que, entre as suas tarefas de casa, tinha que fazer o café que depois transportava em cântaras para o bar. António Alves, que namorava com Carolina, ajudava a transportar as cântaras. Dessa forma entrava antes das sessões iniciarem, via os filmes e os espetáculos sem pagar, enquanto esperava que Carolina terminasse o seu trabalho. Nos intervalos ela ia aos camarotes servir café e vender doces, quando passava por António enchia-lhe os bolsos de rebuçados. Carolina, minha mãe, trabalhou no Cine-Teatro Neiva até aos 22 anos, quando se casou com António, meu pai. II Nascido em 1916, Artur do Bonfim lembra-se de ir ver o Charlot ao teatro Afonso Sanches, em Vila do Conde. Relata que nesses tempos de cinema mudo quem tocava o piano a acompanhar os filmes era o compositor João Saraiva. O Afonso Sanches tinha sido concebido à medida do Theatro Circo, de Braga e do Sá da Bandeira, no Porto, havia todo o tipo de espectáculos. Artur do Bonfim era amador de teatro e também lá teve algumas actuações. Lembra-se da chegada do cinema sonoro em 1934, e do primeiro filme sonoro a que assistiu: “O Congresso que Dança”. A sala do teatro Afonso Sanches foi-se degradando à medida que se entrava na década de 40 e o cinema passou a projectar-se na Esplanada da avenida Júlio Graça, durante alguns anos, no Verão. Ainda nos anos 40 aparece uma nova sala de cinema em Vila do Conde. O jornal Renovação – Pela Terra pelo Estado Novo, publica vários artigos que nos dão conta de uma certa tristeza pela sorte do antigo teatro que ficou na posse da Santa Casa da Misericórdia, mas também de uma certa polémica em relação ao novo cinema do empresário Joaquim de Oliveira Neiva. Em 1949 Artur do Bonfim já era jornalista e administrador do jornal Renovação e tinha um assento reservado no Cine-Teatro Neiva, tal como os jornalistas do Primeiro de Janeiro e do Jornal de Notícias, cedido em troca da divulgação do filme da semana nas respectivas publicações. Descreve que dos filmes que passaram no Neiva nesses tempos não se lembra bem, que ia lá para fazer companhia ao velho José Maria (pai de José Régio) e tomar um café. Cesário M. F. Alves a partir de relatos orais de Carolina Ferreira e Artur do Bonfim

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