Instalação, um quadro, uma caixa com bilhetes, uma sala de cinema vazia, 2008

A totalidade de bilhetes de uma única sessão numa única noite foi adquirida num cinema. Os bilhetes permaneceram inutilizados. O cinema permaneceu vazio, o filme não foi visto naquela sala àquela hora.

Sala 4 do Cinema Cidade do Porto
13 Dezembro 2008
19:00

Esta obra é sobre criar um espaço de não-recepção, uma espécie de espaço em branco. É também de certo modo escultural, cria um vazio e é sobre o espaço do cinema propriamente dito. Ao tornar algo indisponível desta forma há sempre que considerar as consequências, tal como quando há uma obstrução na rua, as alternativas são procuradas, encontradas e levadas a cabo, tudo isto é parte do trabalho.


Um filme sem ser

O projecto é de uma simplicidade formal e de uma eficácia conceptual verdadeiramente desarmantes. Unseen Film, do artista britânico Graham Gussin, pode ser apresentado ad infinitum, pelo menos enquanto existir cinema e a sua visualização passar pela projeccção em salas públicas (o que, curiosamente, nos leva a corrigir a expressão ad infinitum, ou seja, pensando na hipótese de sobrevivência do acto moderno de sociabilidade que consistia em “ir ao cinema”). Em que consiste, então, este projecto? Numa sala de exposição apresenta-se sobre uma espécie de écran negro um lettering a branco que explica a acção: a totalidade dos bilhetes de uma sessão de cinema foram comprados. Os bilhetes não foram usados. O cinema ficou vazio, e o filme não foi visto nesse local e nessa altura. Por baixo desta explicação, informação factual: local, data e hora. Para completar a peça, apresenta-se uma pequena caixa de acrílico com os bilhetes da sessão em causa: imaculados, não usados, fechados na sua quase imediata e inexorável inutilidade. Tal como a maior parte das obras de Graham Gussin, Unseen Film é mais do que um dispositivo visual. Na verdade, a complexidade da peça deriva precisamente da sua imaterialidade conceptual, do modo como refere um campo de deslocações perceptivas, no espaço e no tempo, que radicam na obrigatoriedade do espectador se confrontar com um não-local (a sala de cinema) e uma não-acção (o filme não-visto). Acresce que um dos momentos decisivos, aquele que efectivamente aconteceu, aquele cuja espessura se cola ao real, se torna num acontecimento fantasmático, num vazio que só podemos imaginar e nunca testemunhar ou verificar: a sala de cinema com o filme projectado perante a plateia compulsoriamente esvaziada. Desejo e frustração. Num mundo repleto de imagens, esta é uma obra que nos fala do excesso enquanto cegueira e da imaginação como desejo do real. Miguel von Hafe Pérez

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