Ken Jacobs

Ken Jacobs

Ken Jacobs

Ken Jacobs foi um dos pioneiros do cinema de vanguarda norte-americano. Desde os seus primeiros filmes, realizados no final da década de 50, até às suas mais recentes experiências com vídeo digital, a sua obra, profundamente inovadora, têm tido uma influência forte em inúmeros artistas e cineastas.
Figura importante de uma geração de criadores nascidos em Nova Iorque viria a ser profundamente influenciado pelo seu professor de pintura Hans Hoffman. No entanto, apesar da sua formação académica, Ken Jacobs cedo começou a desenvolver a sua actividade artística na área do cinema.
A sua amizade com um dos nomes míticos do cinema underground de Nova Iork, o cineasta e performer Jack Smith, levou-o a desenvolver um cinema profundamente irreverente. Nos seus filmes não utilizava actores profissionais, como é o caso do então desconhecido Jack Smith. Com o recurso à improvisação, desenvolveu uma forma verdadeiramente livre de fazer cinema, que viria a permitir a realização de duas obras marcantes para o então novo cinema underground americano - “Blond Cobra” e “Star Spangled to Death”.
Em 1966, em conjunto com a sua mulher Flo, formou o Millenium film Workshop, verdadeira “escola de rua”, que se tornou numa oportunidade única de apreender e fazer cinema para alguns cineastas da sua geração e outros mais jovens como Ermir Gehr.
No entanto, quando realizou o filme “Tom, Tom the Piper's Son”, entre 1969 e 1971, Ken dava início aos primeiros passos num cinema de apropriação, onde o termo found footage viria a ganhar especial sentido na sua obra e em algumas das tendências mas inovadoras do cinema experimental. O seu divertido trabalho com Jack Smith viria a ser gradualmente substituído por aquilo que viria a chamar de prazeres do inconsciente cinemático.
As suas investigações e experiências no campo da apropriação de sequências de filmes, nomeadamente dos primórdios da história do cinema, tornaram Jacobs numa das figuras marcantes do cinema estruturalista, onde o argumento e os actores foram gradualmente substituídos por uma exploração dos limites da linguagem cinematográfica e dos seus significados.
Posteriormente foi desenvolvendo um interesse pelas capacidades performativas do cinema, o que o levou a criar uma técnica onde explorava os limites do 2D e do 3D e que viria a chamar de Nervous system. Nas suas performances recorria a dois projectores de cinema e a duas cópias dum mesmo filme. As imagens adjacentes combinadas no ecrã confrontavam o espectador com movimentos impossíveis, os quais proporcionavam uma experiência estroboscópica violenta. Mais recentemente desenvolveu o The nervous magic lantern onde recorre a outras imagens que não as provenientes do cinema e onde explora a profundidade das imagens, através de uma fonte luminosa única inspirada na lanterna mágica do século XVII.
Na última década, Ken Jacobs investiu nas capacidades de experimentação do cinema digital e nas suas tecnologias. O seu activismo, os seus filmes, as suas práticas performativas ou as mais recentes experiências no campo da manipulação digital, sempre revelaram uma prática de experimentação e exploração das imagens em movimento que o tornam, senão único, pelo menos, um marco do cinema experimental de todos os tempos e, provavelmente, de um outro fenómeno a que podemos chamar de Arte Cinemática.
A relevância do seu trabalho levou-o a receber alguns prémios importantes a nível internacional como reconhecimento pela sua obra e, algumas das maiores instituições mundiais no campo das artes, tais como o MOMA ou o Whitney Museum of Modern Art, têm organizado exposições e mostras dedicadas à sua vasta obra.
A exposição Action Cinema, apresentada na Solar, permitirá, pela primeira vez em Portugal, dar a conhecer uma perspectiva mais consistente e aprofundada sobre o trabalho do cineasta. Ao colocar um número significativo dos seus vídeos e outras experiências digitais com imagens em movimento em contexto expositivo, permitirá uma reflexão sobre o confronto das suas práticas actuais com o espaço da galeria e com algumas questões centrais do seu trabalho profundamente ligado ao relacionamento do espectador com aquilo que chamou de inconsciente cinemático. A exposição centra-se em alguns dos seus mais recentes projectos de experimentação digital onde predominam as suas práticas resultantes da apropriação de imagens, que o artista desenvolve desde a década de 70. O conjunto de obras a apresentar integra dois dos aspectos mais marcantes do seu trabalho actual: uma reflexão sobre algumas das imagens da origem do cinema ou da fotografia e material que o cineasta tem vindo a compilar e a reutilizar (proveniente das suas fotografias pessoais e dos seus home-movies onde revisita a família e o seu círculo de amigos como Jonas Mekas, Stan Brakhage ou Peter Kubelka).
No âmbito desta exposição terá lugar, no Teatro Municipal, um conjunto de actividades paralelas que integram a programação do 18º Curtas Vila do Conde Festival Internacional de Cinema.

Nuno Rodrigues

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