MONOLITO (mar)

Rui Xavier, 2011
Dimensão 8m X 4,50m X 3,30m.
Vidro, Cimento, Madeira, e Projecção em pelicula de retenção.

Voltar “a casa”, voltar “à terra”, é para mim, na realidade, voltar ao mar. Assim como estar “em casa” é estar junto do mar.
Tão grande e visceral é a permanência do mar na vida de quem junto a ele cresceu que, no meu caso, a sua presença visual, sonora e até espiritual tem exercido uma forte influência em todo o meu trabalho.
Muitos autores fizeram do mar o território predominante das suas criações, mas três obras informam conscientemente a criação desta peça:
“La Mer - Três Esquiços Sinfónicos para Orquestra” (1092-05), de Claude Debussy, em especial o segundo andamento, “Jogos das Ondas”;
O filme “Romance de Vila do Conde” (1965-2008), de Manoel de Oliveira, onde podemos ver uma sequência de ondas, num dia de marés vivas, filmada na praia de Vila do Conde.
E o filme “2001 A Space Odyssey ” (1968) de Stanley Kubrick, com as misteriosas sequências em que o aparecimento de um monolito causa o mesmo espanto ao Homem “ancestral” e ao Homem do “futuro”.
Para criar esta peça procurei na matéria física do mar e nos movimentos das suas ondas uma máquina kinética de movimento/tempo, em que estes vectores parecem repetir-se ad eternum.
Uma onda sobe a praia num movimento/tempo acelerado (fast-forward) que vai abrandando até se tornar lento (slow-motion) para de seguida quase se deter (still-motion) e recomeçar a sua aceleração, agora no sentido inverso (fast-backward), que por sua vez abrandará até o movimento/tempo se deter de novo, apenas o tempo suficiente para que tudo recomece. No entanto, este carácter repetitivo é apenas aparente. No movimento/tempo de cada onda podemos descobrir sempre nuances que diferenciam a acção dessa onda da acção de todas as outras. Nunca o movimento/tempo de uma onda se repetirá.
No jogo de luz e sombra que revela e esconde a água e a areia, procurei uma metáfora para a mais poderosa e invisível força da natureza: a força gravitacional, que põe em funcionamento, quase como por magia, a máquina kinética que é o mar.

Rui Xavier

Nasceu no Porto em 1974. Vive e trabalha em Lisboa. Completou o seu bacharelato em Tecnologias da Comunicação Audiovisual no Instituto Politécnico do Porto em 1995, começando a interessar-se pela Fotografia e pelo Cinema. Continuou os seus estudos na Grã-Bretanha concluindo, em 1997, uma Pós-graduação em Fotojornalismo, em Cardiff, na Universidade do País de Gales. Trabalhou em Londres como fotógrafo do diário “The Independent”. Em 1998 voltou a Portugal para trabalhar como freelancer criando com outros fotógrafos o colectivo Kameraphoto. Começou a fazer algumas experiências com vídeo na área documental, fundando com Bruno Gonçalves a Ricochete Filmes. Desde 2006 tem trabalhado em cinema como director de fotografia e desenvolvido alguns trabalhos como artista plástico.

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