A Cinemateca Júnior na Animar 7

O Teatro de Sombras
As representações de sombras numa parede constituem a essência do cinema: projecão de imagens recortadas pela luz. Embora o cinema não tenha uma ligação directa do ponto de vista técnico com o teatro de sombras, deve muita da sua magia e do seu mistério a esta antiga arte da representação.
No tempo em que as pessoas viviam em cavernas e se vestiam com peles de animais, descobriram muitos jogos de sombras nas noites iluminadas com fogueiras.
Há muitos, muitos anos, na China e noutros países do oriente apareceram os espetáculos de sombras e ainda hoje fazem parte da cultura de muitos povos. Figuras recortadas em pele de animais ou noutros materiais, pintadas e articuladas para dar mais movimento ao espetáculo, eram colocadas em frente a uma luz fazendo bonitas sombras sobre um pano branco – como um écran de cinema hoje. Na Indonésia as sombras javanesas (em exposição) Wayang Kulit são famosas. Todos os espetáculos são acompanhados por um grupo de músicos chamados Gamelan e são dirigidos por um Dalang (narrador da história que está sentado ao lado do écran para o público o ver – à medida que vai contando a história as personagens vão entrando em cena).
Quando estes espectáculos chegaram à Europa, chamaram-lhes Sombras Chinesas. As figuras eram muito diferentes, já não eram pintadas com muitas cores e raramente eram articuladas. Eram feitas de cartão preto ou de chapa de alumínio. Os espetáculos eram muito bonitos e divertidos e tiveram grande sucesso, no Século XVIII, sobretudo em França mas também noutros países da Europa. Durante o século XIX as sombras passaram a ser uma forma de entretenimento familiar: teatros brinquedo (em exposição), folhas com silhuetas para recortar e manuais dedicados à “sombromania” obtiveram um grande sucesso entre adultos e crianças. No fim do século, o lendário Cabaret du Chat Noir de Paris organiza um dos mais sofisticados espetáculos da arqueologia do cinema, juntando às técnicas do teatro de sombras projeções com lanternas mágicas.

A Lanterna Mágica
A Lanterna Mágica é um aparelho para projeção de imagens sobre vidro, pintadas em cores translúcidas. É composta por uma fonte luminosa, que nas primeiras lanternas era uma simples vela ou um candeeiro a petróleo, um reflector, um condensador e uma objectiva. É o primeiro aparelho destinado a projeções coletivas, contrariamente às caixas óticas ou instrumentos óticos para olhar individualmente através de lentes, espelhos ou prismas. São espetáculos para admirar em companhia, nas praças, num salão ou numa sala de projeção. As origens deste aparelho espetacular foram investigadas nos mais antigos documentos de óptica. Não existe uma data certa que testemunhe a sua invenção, mas atribui-se ao célebre astrónomo holandês Christiaan Huygens, em 1659, uma das primeiras descrições da lanterna mágica. Alguns anos depois, o dinamarquês Thomas Walgenstein utiliza a lanterna como aparelho para realizar espetáculos, enquanto o padre jesuíta alemão Athanasius Kircher aproveita as suas potencialidades, transformando-o num eficaz instrumento pedagógico, descrito na segunda edição da sua obra ARS LUCIS ET UMBRAE, impressa em Amesterdão em 1671. A história do progresso técnico e imaginativo deste aparelho é extremamente rica e fascinante e a sua evolução desenvolve-se até ao fim do Séc. XIX. A Lanterna Mágica atinge o seu auge no âmbito científico em 1700 quando é utilizada frequentemente nos gabinetes de ótica como instrumento de ensino. A Igreja católica usou-a para ensinar a sua doutrina e também para amedrontar os fiéis mostrando-lhe os horrores do inferno. Tanto servia para espectáculos na rua e passatempo nos salões aristocráticos, como era utilizada por pessoas pouco honestas que a usavam para enganar os ingénuos, levando-os a acreditar que as visões projectadas pela Lanterna fossem arte de bruxaria. A popularidade e interesse pela Lanterna Mágica levaram ao aparecimento, em muitos países da Europa, de um novo ofício: o de Lanternista ambulante, tal como dois séculos depois aconteceria com o cinema. Exatamente durante esses dois séculos estes mágicos espectáculos bateram à porta de todos os lares. No final do Séc. XVIII um novo espetáculo de Lanterna Mágica, denominado Fantasmagoria, faz sucesso em Paris com os seus espetaculares efeitos acústicos, luminosos e pirotécnicos, evocando aparições do passado e monstros terríveis. O inventor deste espetáculo, Robertson, (Étienne-Gaspard Robert), físico belga, construiu uma lanterna mágica especial – o Fantascópio - montada num suporte móvel que permitia aproximá-la e afastá-la no decorrer das projeções a fim de obter os diversos efeitos especiais. A Lanterna ficava fora da vista do público, por trás da fina tela branca, em frente da qual se sentavam os espetadores na penumbra. As imagens projetadas sobre esse pano transparente surgiam do outro lado, conservado no escuro, como aparições sobrenaturais, fantasmagóricas. Com a industrialização das lanternas mágicas, a partir da segunda metade do Séc. XIX, o ofício do lanternista ambulante torna-se gradualmente mais raro. Mas a Lanterna Mágica continuava a fascinar as multidões e nunca foi tão solicitada e vendida como a partir da segunda metade do Séc.XIX. Por um lado, graças à produção em larga escala, as lanternas mágicas entraram nas casas particulares deliciando adultos e crianças com as suas projeções. Eram vendidas em caixas de madeira ou papelão contendo uma lanterna mágica e uma série de vidros que poderiam ser executados pelas crianças contando pequenas histórias. Por outro lado, intensificaram-se os grandes espetáculos onde os Lanternistas tinham dois sonhos: primeiro, dar movimento a imagens fixas; segundo, contar histórias em imagens. Os mecanismos de animação dos vidros variavam entre os mais simples sistemas de pega e vidros com máscara, utilizados para accionar figuras ou pequenas cenas cómicas, e os mais sofisticados vidros com caixilho mecânico para animar cromatrópios espetaculares e coloridos, paisagens sugestivas, o movimento dos planetas, num repertório de imagens complexas e harmoniosos movimentos. As placas de vidro, verdadeiras obras-primas de pintura eram executadas por pintores profissionais quase sempre anónimos e animadas através do espetacular mecanismo da dissolvência. Para este efeito, utilizaram-se inicialmente lanternas duplas (bi-unial) postas uma ao lado da outra e munidas de obturadores chamados olho-de-gato. Nas últimas décadas do Séc. XIX estes espetaculares efeitos de projeção eram realizados com sofisticadas lanternas duplas e triplas posicionadas uma em cima da outra (bi-unial e tri-unial). Tecnicamente, este tipo de lanterna mágica permitia a utilização de dois ou três vidros de projeção ao mesmo tempo, a fim de obter o sofisticadíssimo efeito de projeção da dissolvência (dissolving views), ou seja a sucessão de “imagens” complementares que podiam ser observados em continuidade pelo público, enriquecidos por efeitos de passagem dia/noite, mudança das estações e maravilhosas aparições.

Os Instrumentos Óticos
A evolução da Ótica não pode prescindir da compreensão do funcionamento do olho humano, o mais antigo e sofisticado “instrumento ótico” de todos os tempos. Leonardo da Vinci foi o primeiro cientista a comparar o funcionamento do olho humano com o da câmara escura, instrumento ótico baseado no simples mecanismo de um raio de luz que, passando através um pequeno furo, permite recriar no interior da câmara, completamente escura, as imagens que provêm do exterior. A primeira referência histórica à câmara escura remonta a Aristóteles no séc. IV a.C.. Muitos séculos depois o estudioso árabe Alhazen utilizou este princípio para observar o fenómeno do eclipse solar. O instrumento científico afirma-se como uma eficaz máquina espetacular, quando, em 1589, o italiano Giovan Battista della Porta descreve um espetáculo realizado no interior duma câmara escura. A partir daí a câmara escura (em exposição) foi-se transformando num instrumento sempre mais manejável e aperfeiçoado: inserindo, por exemplo, no seu interior um espelho a 45º, é possível reproduzir a imagem exacta da realidade, sem ser invertida. A demonstração clássica do efeito da persistência da visão consiste em observar um ponto de luz que gira rapidamente na escuridão e que é perceptível como uma circunferência ou elipse luminosa ininterrupta. A partir da segunda década do séc. XIX as pesquisas sobre este fenómeno deram origem a uma série de instrumentos e brinquedos óticos, cada um dos quais representa o aperfeiçoamento em relação ao precedente no caminho da animação da imagem. A primeira aplicação prática encontra-se no taumatrópio de John Ayrton Paris (1826), que permitia combinar duas imagens complementares formando aparentemente uma terceira. Joseph Plateau inventou o fenaquistiscópio (em exposição), criando o primeiro disco que reproduzia perfeitamente a ilusão da primeira imagem em movimento. Trata-se de um simples disco em papelão com ranhuras na extremidade, com uma série de figuras desenhadas e separadas regularmente, em posições sucessivas ligeiramente diferentes. Em 1867, partindo do princípio do fenaquistiscópio, William George Horner inventa o zootrópio (em exposição). As imagens são desenhadas sobre uma tira de papel, uma espécie de precursor da película cinematográfica, colocada no interior de um tambor cilíndrico dotado de ranhuras, que roda no próprio eixo. Émile Reynaud tem um papel indiscutivelmente prioritário entre todos os animadores da era pré-cinematográfica. Em 1877, partindo das pesquisas de Plateau e de Horner, aperfeiçoou os mecanismos criando o praxinoscópio (em exposição), um dos instrumentos óticos mais complexos e sugestivos sob o ponto de vista espetacular que foram inventados durante o séc. XIX. O praxinoscópio mantém a estrutura do zootrópio de Horner substituindo as ranhuras por um prisma poligonal, colocado no centro do cilindro. O praxinoscópio produz um movimento muito mais fluido e contínuo, e uma maior luminosidade da imagem, marcando um importante passo em frente em relação aos instrumentos precedentes. Entre 1879 e 1892, Reynaud inventa uma série de aparelhos em busca do enriquecimento do espetáculo das imagens em movimento, para um público cada vez maior: o praxinoscópio-teatro onde as imagens eram animadas sobre cenários teatrais em miniatura na tampa da caixa que continha o aparelho, o praxinoscópio de projeção que permita projetar imagens desenhadas e pintadas à mão num grande écran e, por fim, desenvolve uma verdadeira máquina de espectáculo, o Teatro Óptico. A complexidade da estrutura e funcionamento desta máquina de projeção inviabilizou a sua comercialização. O engenhoso aparelho projetava, com a ajuda da lanterna mágica, as imagens desenhadas numa tira flexível, de comprimento indefinido que se enrolava e desenrolava em duas bobines. A tira regularmente perfurada prenuncia a película cinematográfica. Reynaud ultrapassou o limite da acção repetitiva e limitada que tinha distinguido os outros aparelhos óticos. A partir de 1892, Émile Reynaud organiza no Museu Grévin de Paris, verdadeiros espetáculos de desenhos animados, as pantomimas luminosas, com a duração de cerca de meia hora, e acompanhamento musical ao vivo concebido para a ocasião. O nascimento do cinema marca o fim das pantomimas luminosas.

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