A Primeira Sessão

França, 1895/1995
de Louis e Auguste Lumière
e Philippe Truffault


Realização: Philippe Truffault, contendo a íntegra do primeiro programa de cinema a ter sido apresentado no mundo, do Cinematógrafo Lumière, no Salon Indien do Grand Café, em Paris, a 28 de Dezembro de 1895
Narração: Rita Bonifácio
Produção: Acme Films e Well Well, para a Association les Frères Lumière
Duração: 12 minutos

A fotografia data da década de 1830. Quando o cinema, tal como ainda hoje o conhecemos, foi inventado, cerca de sessenta anos depois, a técnica fotográfica estava extremamente desenvolvida e o cinema foi, de certa forma, uma extensão da fotografia, com o acréscimo do movimento. O cinema baseia-se numa ilusão de óptica, pois o que vemos é uma série de imagens paradas, projectadas a uma velocidade tal (24 fotogramas por segundo no cinema sonoro, entre 16 e 20 no período mudo) que o espectador tem a ilusão de que estão em movimento. Como todas as invenções, a do cinema se fez por etapas, com precursores, inventores que tacteavam e faziam algumas descobertas e aqueles que sintetizaram as pesquisas que tinham sido feitas e encontraram a chave que faltava. Por consenso geral, a paternidade da invenção do cinema foi atribuída, muito justamente, aos irmãos franceses Louis e Auguste Lumière, mas eles não foram os únicos. Em meados dos anos 1890, o grande inventor americano Thomas Edison, ligado entre outras coisas à invenção da lâmpada eléctrica e do fonógrafo (gravação do som), fazia filmes, ou seja, imagens fotográficas em movimento, gravadas num rolo, com o seu Kinestocópio. Mas estas imagens deviam ser vistas numa caixa de madeira, através de uma lente, por uma pessoa de cada vez. O golpe de génio dos irmãos Lumière, cujas pesquisas eram simultâneas às de Edison e tão adiantadas como as dele, foi o de projectar estas imagens numa tela, numa sala às escuras.

Logo depois da primeira sessão pública de cinema, os Lumière, nome que por uma feliz coincidência significa luz, formaram e despacharam operadores a vários países do mundo, onde captavam vues (vistas) de cidades ou das populações. Mas os Lumière também fizeram home movies, cenas cómicas e cenas reconstituídas da vida real. La Première Séance (“A Primeira Sessão”), de Philippe Truffault, feito por ocasião do centenário do cinema em 1995, reconstitui exactamente o programa da primeira sessão pública de cinema no mundo, mais exactamente do então chamado Cinematógrafo Lumière. Este programa foi apresentado no Sábado 28 de Dezembro de 1895, às 18 horas, no Salon Indien do Grand Café, no Boulevard des Capucines, em Paris, a dois passos da Place de l'Opéra, ou seja em pleno centro da capital francesa. Trinta e três espectadores pagantes assistiram a esta primeira sessão. Ao que parece, os irmãos Lumière não estavam presentes e a sessão foi dirigida pelo pai deles, Antoine.

O programa consistia nos seguintes filmes, cada um com menos de um minuto de duração: Sortie des Usines Lumière à Lyon (“Saída da Fábrica Lumière, em Lyon”); La Voltige (“A Cambalhota”); La Pêche aux Poissons Rouges (“A Pesca dos Peixinhos Vermelhos”); Le Débarquement du Congrès de Photographie à Lyon (“O Desembarque do Congresso de Fotografia, em Lyon”); Les Forgerons (“Os Ferreiros”); Le Jardinier (“O Jardineiro”); Le Repas (“A Refeição”); Le Saut à la Couverture (“Saltar com a Manta”); La Place des Cordeliers à Lyon (“A Place des Cordeliers, em Lyon”); La Mer (“O Mar”).O programa consistia nos seguintes filmes, cada um com menos de um minuto de duração: Sortie des Usines Lumière à Lyon (“Saída da Fábrica Lumière, em Lyon”); La Voltige (“A Cambalhota”); La Pêche aux Poissons Rouges (“A Pesca dos Peixinhos Vermelhos”); Le Débarquement du Congrès de Photographie à Lyon (“O Desembarque do Congresso de Fotografia, em Lyon”); Les Forgerons (“Os Ferreiros”); Le Jardinier (“O Jardineiro”); Le Repas (“A Refeição”); Le Saut à la Couverture (“Saltar com a Manta”); La Place des Cordeliers à Lyon (“A Place des Cordeliers, em Lyon”); La Mer (“O Mar”).O programa consistia nos seguintes filmes, cada um com menos de um minuto de duração: Sortie des Usines Lumière à Lyon (“Saída da Fábrica Lumière, em Lyon”); La Voltige (“A Cambalhota”); La Pêche aux Poissons Rouges (“A Pesca dos Peixinhos Vermelhos”); Le Débarquement du Congrès de Photographie à Lyon (“O Desembarque do Congresso de Fotografia, em Lyon”); Les Forgerons (“Os Ferreiros”); Le Jardinier (“O Jardineiro”); Le Repas (“A Refeição”); Le Saut à la Couverture (“Saltar com a Manta”); La Place des Cordeliers à Lyon (“A Place des Cordeliers, em Lyon”); La Mer (“O Mar”).

Em La Première Séance Philippe Truffault tentou reconstituir quase exactamente a primeira projecção, numa perspectiva mais arqueológica do que histórica, com pormenores um tanto anedóticos porém informativos. Uma narradora lê o programa da sessão e, já que "havia um intervalo de cerca de um minuto entre cada filme", dá-nos pequenas informações sobre a sessão e sobre o aparelho dos Lumière. Às informações dadas no filme podemos acrescentar algumas outras, que não são sem importância: o Cinematógrafo Lumière era ao mesmo tempo um aparelho de filmar e de projectar; todos os filmes de 1895 foram filmados pelo próprio Louis Lumière, que só no ano seguinte formaria operadores; os aparelhos inventados pelos irmãos não eram fabricados directamente por eles (fabricavam placas fotográficas e a película cinematográfica), embora sob a sua completa orientação. Podemos notar também que na composição do programa desta histórica sessão já aparecem todas as principais tendências dos filmes Lumière: vistas de cidades, cenas cómicas (Le Jardinier, mais conhecido hoje como L'Arroseur Arrosé, ou seja “O Regador Regado”), cenas da vida de família dos Lumière, verdadeiros home movies que o passar do tempo tornou sublimes (Le Repas, mais conhecido como Le Repas de Bébé; La Pêche aux Poissons Rouges), cenas reconstituídas da vida real.

O primeiro filme desta sessão, o primeiro filme a ter sido exibido publicamente no mundo, pertence simultaneamente a várias destas tendências: é a famosa saída dos operários da fábrica dos Lumière em Lyon, filmada "no fim do verão de 1894, pois era necessário muito sol para filmar estas cenas", segundo o testemunho de Louis Lumière. É ao mesmo tempo um home movie (trata-se da fábrica dos Lumière), uma vista da realidade, análoga às vistas de cidades de que os Lumière foram especialistas, e um fragmento da realidade, revivido para a câmara, pois todos têm consciência de que são filmados, embora não pudessem saber exactamente o que era um filme (note-se que ninguém olha para a câmara, fingindo que ela não está ali, certamente por injunção dos Lumière). Saber que os primeiros homens e mulheres vistos numa tela de cinema eram trabalhadores dá-nos um certo sentimento de justiça. E é vertiginoso saber que eram trabalhadores da fábrica onde eram confeccionados os primeiros filmes.

Mas isto não é tudo. Desde o começo, os Lumière tinham consciência daquilo que faziam e buscaram a perfeição. Numa entrevista dada ao historiador do cinema Georges Sadoul em 1948, seis meses antes de morrer, quando o entrevistador observa a que ponto os seus filmes são bem enquadrados, Louis Lumière diz: “O que sempre me preocupou nos meus filmes foi a disposição no espaço daquilo que eu filmava”. Num brilhante texto de 1995, André S. Labarthe observa que os filmes dos Lumière são o núcleo de todo o cinema por vir, pois já contêm três elementos fundamentais do cinema: o enquadramento, o tempo e o acaso. Os irmãos Lumière fizeram nada menos de três versões de A Saída da Fábrica Lumière, em Lyon, um filme que parece tão singelo. Na primeira versão, a câmara estava na melhor posição possível para captar o espaço: o portão da fábrica, a totalidade dos operários, com espaço suficiente para saírem sem esbarrarem na câmara e o espaço do interior da fábrica. Por quê fizeram então uma segunda versão? Porque queriam que nos quarenta e cincos segundos de duração do filme o portão da fábrica se abrisse e se fechasse por completo - um pouco como a cortina de um teatro que se abre e se fecha - e pediram aos operários que andassem um pouco mais depressa. Em suma, neste breve filme, os irmãos Lumière já manifestam um domínio total do espaço e do tempo, um domínio total do cinema. Como observou nos anos 60 o fundador da Cinemateca Francesa, Henri Langlois, “em Lumière, não há acaso, há saber”. Os filmes feitos pelos irmãos Lumière e pelos seus operadores de câmara foram os primeiros, mas nada têm de primitivos.

Antonio Rodrigues

Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema

© 2017 Curtas Vila do Conde