Sob Influência de Kubrick

O cineasta americano Stanley Kubrick (1928-1999) é uma figura incontornável do cinema das últimas décadas do século vinte. A sua obra monumental continua, por isso, a influenciar os novos cineastas e artistas visuais do cinema e da arte contemporânea. Filmes como “A Laranja Mecânica” (1971), “The Shining” (1980), “2001: Odisseia no Espaço” (1968) ou mesmo “De Olhos Bem Fechados” (1999), são obras essenciais da arte cinematográfica e da experimentação narrativa. Por isso mesmo Kubrick utilizou e experimentou abundantemente o cinema de géneros: terror, ficção científica, filme histórico ou mesmo o melodrama. Os seus métodos meticulosos (de que o exemplo máximo é a repetição exaustiva de takes), e a sua capacidade de inventar novos métodos cinematográficos (lembremo-nos, por exemplo, das lentes que foram utilizadas em “Barry Lyndon”, 1975) tornam-no, de facto, num dos mais importantes autores da história do cinema

“2012 Odisseia Kubrick” é, por isso, uma celebração do génio do cineasta e do lastro da influência das suas obras. O momento mais importante deste tributo centra-se numa exposição na Solar – Galeria de Arte Cinemática e no Centro de Memória, que inclui trabalhos de realizadores e artistas visuais que se apoiam na importância filosófica e cinematográfica de Stanley Kubrick. Serão, por isso, exibidas obras de Graham Gussin, Johan Thurfjell, Nicolas Provost, Sheena Macrae, e dos portugueses Pedro Tudela, Miguel Soares, Alexandre Estrela, João Tabarra e João Onofre.

O conceito central da exposição resulta de um elogio e homenagem à importância do realizador por parte da equipa de programação do festival, um pouco à imagem do grande sucesso de outra destas experiências: a exposição “Under Hitchcok” cujas premissas eram, precisamente, perceber a influência do mestre inglês na cultura contemporânea.

As obras que integram esta exposição, maioritariamente produzidas no século XXI, demonstram uma grande variedade de abordagens em relação à obra de Kubrick e dialogam também com as obras dos próprios autores. Para além disso, estas obras resultam de um fascínio por alguns dos filmes mais populares de Kubrick, sobretudo “2001: Odisseia no Espaço”, “The Shining”, bem como da simpatia revelada pelo humanismo austero do realizador. Algumas das cenas mais marcantes destes filmes são, por isso, apropriadas ou reencenadas para dialogarem com as obras dos próprios artistas e para se articularem também com o espaço museológico onde vão ser exibidas.

Por exemplo, no caso de Alexandre Estrela, o artista português dialoga com o conceito de monolito presente em “2001: Odisseia no Espaço” e a forma como esse monolito representa o ecrã negro no filme de Kubrick. É essa reencenação proposta pelo artista português. É também nesse contexto que surge a obra de João Tabarra, que filma de novo a célebre cena do osso atirado pelos macacos em “2001: Odisseia no Espaço”. Neste caso, o osso não faz o “match cut” com a nave espacial como no filme. Pelo contrário, é desfeito com um tiro seco numa demonstração realista proporcionalmente oposta à dança sideral do filme de Kubrick. Também João Onofre utiliza “2001” para a sua peça, desta vez usando uma cena espacial do filme, mas colocando-a em espelho, numa solução escultórica (esta é já uma peça datada de 1999). Finalmente, Graham Gussin também utiliza a obra-prima de ficção científica de Kubrick, exibindo dois monitores de início sincronizado, mas com durações diferentes, que permitem um diálogo entre passado e futuro narrativo.

Pedro Tudela opta por uma relação com o filme “De Olhos Bem Fechados”, criando uma peça escultórica que recupera o som característico do filme (e da cena onde se desenrola o encontro da sociedade secreta), associando-o a uma máscara. É, portanto, uma reflexão sobre a identidade e o poder que o filme de Kubrick também faz. Mais radical é a peça de Sheena Macrae que manipula o filme “2001: Odisseia no Espaço” de forma a torná-lo imperceptível. A forma escultórica criada (através de espelhos) exibe imagens em movimento abstratas mas repletas de movimento e cor típicos da fantasia futurista de Kubrick.

O filme de Nicolas Provost “Induction” está perfeitamente integrado na lógica da sua obra, isto é, na forma como Provost constrói situações (neste caso filmadas pelo próprio artista) para repensar questões de género. A referência principal deste filme é, claro, “The Shining” e das emoções associadas ao terror (o medo ou o suspense, por exemplo). Uma das características essenciais é, por isso, a construção da banda sonora.

Completam a exposição uma obra de Thrufjell – “Do You Have the Shine”, em que o autor cria um jogo de vídeo e um filme associado a partir da geografia do hotel de “The Shining”; e duas peças de Miguel Soares – “Space Junk Beta 0.1” e “Time Zones”: ambos são animações 3D em que o autor lida também com referências kubrickianas (por exemplo, “2001: Odisseia no Espaço”, mas também “Dr. Strangelove”).

A acompanhar esta Exposição haverá um programa paralelo que exibirá alguns dos filmes mais populares de Stanley Kubrick, como “The Shining” ou “A Laranja Mecânica” e um outro menos conhecido:“The Killing”. Outro dos pontos altos de “2012 Odisseia Kubrick” será a exibição do documentário “Stanley Kubrick – A Life in Pictures” (2001), com a presença do seu realizador, Jan Harlan. Harlan, que acompanhou de perto a vida pessoal de Kubrick, foi produtor executivo de vários dos seus filmes e acompanhou a preparação do épico “Napoleão”, um projeto que infelizmente nunca chegou a ser realizado. Durante a sua passagem por Vila do Conde, Harlan orientará ainda uma masterclass sobre a obra de Kubrick.

Finalmente será exibido o curioso documentário “Room 237”, de Rodney Ascher, que analisa diferentes interpretações mais ou menos obscuras de “The Shining”. Estes segredos agora revelados causaram furor no último festival de Cannes e também já passarem por Sundance. Provam, assim, que a obra de Kubrick não se esgotará no futuro.

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