instalação
Motion Picture - La Sortie des Ouvriers de l’Usine Lumière à Lyon · Austria · 1984-2008 · 3'20”
O conceito do filme e o objeto que o acompanha podia ser considerado como o resultado da minha leitura de “Tratado Geral da Semiótica” de Umberto Eco. Eco isola aquilo que denomina como “código claro/escuro” como o fundamento fotográfico e, assim, também o código fílmico. Os constituintes deste código são pequenos pontos e os componentes que não possuem nenhum significado per si são semelhantes aos fonemas da língua falada. Apenas combinados com outras partículas insignificantes é que estes pontos fotográficos e sombras criam um significado “figurativo”. Com “Motion Picture la Sortie des Ouvriers de l'Usine Lumière à Lyon”, pretendi isolar estes constituintes fundamentais do código claro/escuro e torná-los visíveis num novo filme. Assim, entrei para a sala escura e montei 50 tiras de filme em 16mm nunca antes exposto na parede, para que uma superfície de 50 x 80 cm ficasse completamente ocupada com estas tiras de película. Então, um fotoframa do primeiro filme de todos os tempos, “La Sortie des Ouvriers de l'Usine Lumière à Lyon”, (1895), realizado pelos irmãos Auguste e Louis Lumière, foi projetada nessa superfície. As tiras expostas foram reveladas e editadas em conjunto (da esquerda para a direita da sua posição inicial na parede). O resultado é um filme em 16mm com três minutos de duração, a mostrar os elementos claro-escuro da imagem dos Lumière, esvaziada de conteúdo figurativo. As tiras de filme originais foram, adicionalmente, colocadas numa caixa de madeira reminiscente de uma antiga câmara dos Lumière para ser exibida ao lado do filme projetado.


É o imperativo lógico duma indústria exclusivamente orientada para o lucro que criou um movimento aparentemente paradoxal dentro do decurso da história (do cinema). O emergir da arte moderna no final do séc. XIX ganhou dinamismo através da exploração da sua materialidade. Hoje, no momento exato em que a indústria digital se prepara para destruir o cinema analógico – um meio artístico completamente desenvolvido – a arte cinematográfica está a regressar à sua origem, revelando explicitamente a beleza da sua materialidade – uma beleza profundamente singular que não pode ser digitalizada, uma beleza que ficará para sempre perdida se não nos impusermos.

Peter Tscherkassky


Peter Tscherkassky iniciou a sua carreira de realizador em 1979. É, hoje em dia, aclamado como um dos mais importantes artistas mundiais. Os seus filmes foram agraciados com mais de 50 prémios, entre os quais o Golden Gate Award (San Francisco), o Main Prize em Oberhausen e o Best Short Film no Festival de Veneza. Tscherkassky completou o seu doutoramento em Filosofia em 1986 com uma dissertação intitulada “Film as Art” e começou a lecionar em 1988. Organizou vários festivais de cinema e foi o curador de inúmeras programações. Desde 1984 publicou vários estudos sobre o cinema “avant-garde. Em 1991 co-fundou a Sixpackfilm. As suas instalações “light box” têm sido expostas em todo o mundo.

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