Lois Patiño fala de um tempo que se detém nos olhos de um espectador acostumado a um tempo mais flexível, a um tempo que se adequa ao que entendemos, atualmente, como tempo narrativo. Um tempo narrativo é aquele que com o seu passo começa a girar uma história, por mais breve e mínima que esta seja. Quando, em frente à tela, duvidamos se existe ou não movimento, é quando esse tempo narrativo começa a exigir ao espectador uma calma para a qual já não parecemos preparados.

Essa sensação através da qual o sujeito se sente esmagado, mesmo longe do lugar que ocupa fisicamente, e contra esta rutura com um tempo narrativo ininteligível, é ocupada por Lois Patiño no presente, e é também o lugar de onde nos chega esta dupla imobilidade: a que se refere ao sujeito e a sua própria câmara, que permanecem imóveis. Inevitavelmente, recordamos Samuel Beckett e o seu Film no qual um abstraído Buster Keaton vagueia sem mostrar seu rosto. Beckett colocava nesse filme o aparecimento de duas personagens dentro do próprio Keaton: aquele que observa e aquele que é observado. Beckett define-os como O (objeto) -o próprio Keaton na sua fuga- e E (olho) -a câmara que o persegue.

Penso imediatamente em Eugenio Trías, na sua análise ao sentimento kantiano do sublime (1). Trías esmiúça a experiência do sujeito em frente a algo grandioso – muito superior a ele em extensão material – e a sensação de estar perante o informe, o desordenado e o caótico. O sujeito sente-se excedido e sobrecarregado, produzindo-se, deste modo, uma reação dolorosa perante tal espetáculo.

O cinema de Lois Patiño é puramente atlantista, como atlantista é o sentimento de um Carlos Oroza, que invoca Pessoa quando diz que por fim o entende, que por fim partilha as suas sensações. [...] Quero viver terminalmente, nos últimos extremos da terra. Desde estes extremos, vejo outro mundo. Isso salvou-me: ir viver para o extremo terrestre da Europa. Anseio muito a distância ... [...] (2). Dirá Rafael Agullol: na pintura romântica, a paisagem deixa de entender como necessária a presença do homem. A paisagem torna-se autónoma e, quase sempre desprovida de figura, converte-se em protagonista; uma protagonista que provoca, em quem a contempla, uma dupla sensação de melancolia e terror (3).
Provavelmente, são essas duas as sensações que invadem Oroza e um Keaton, que se limita a ser objeto. E com certeza absoluta, é também em Lois Patiño, essa necessidade de ver-se assomado a um mar que estabelece um tempo narrativo, perante o qual nos sentimos insignificantes, a razão pela qual a sua câmara permanece imóvel, num silêncio tal que nos permitiria sentir o bombear do coração de um indivíduo cujo corpo presente deixa aberta a opção de desdobrar-se, de observar-se a si mesmo perante essa paisagem incomensurável.

(1) Eugenio Trías, Lo bello y lo siniestro, Ariel, Barcelona, 1988.
(2) 8 poetas raros: Codicia de lo lejano (entrevista a Carlos Oroza), Árdora Ediciones, Madrid, 1992.
(3) Rafael Argullol, La atracción del abismo. Un itinerario por el paisaje romántico, Bruguera, Barcelona, 1983.

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