“Este é um cântico pelo presente eterno. Pontuada por drones de baixo, gaitas e gritos de Black Metal, articulado na alquimia de feixes de luz projetados numa série de ecrãs prateados, esta é uma ode em louvor ao Presente. Comungado por várias latitudes e povoado por habitantes de comunas, animistas, vagabundos, viajantes no tempo, por Ti e por Nós – é aqui que convergem as Linhas de Ley, onde dá à luz uma nova canção. Aqui reside o cinema enquanto espaço: um cântico pelo presente, um feitiço para afastar as trevas.”
Ben Rivers e Ben Russell

Desde os primeiros anos de programação, a Solar – que em 2015 comemora dez anos de atividade – acabou por ficar associada à apresentação de um conjunto de autores inéditos no nosso país, cujo percurso evidenciava uma vontade de experimentar uma metodologia de criação artística que antecipava a formulação da sua apresentação, ora na galeria, ora na sala de cinema, ora em situações de cariz performativo, como foram os casos distintos de Apichatpong Weerasethakul, Tsai Ming Liang, Gustav Deutsch ou Matthias Müller e Christoph Girardet.
Ao longo deste período em que a Solar se evidenciou enquanto espaço expositivo permanente, procurou desenvolver uma forte articulação com autores que foram surgindo no contexto do Curtas de Vila do Conde.
Duas importantes figuras provenientes desse universo foram o inglês Ben Rivers e o norte-americano Ben Russell. A filmografia de ambos foi extensamente exibida no festival, tanto na competição internacional, como na experimental.
O seu foco de investigação, dentro do cinema experimental, atravessa a linha divisória entre o documentário e a ficção mas revela, no entanto, um universo estilístico bastante distinto. Em Rivers, sobressai um universo solitário, através duma estética cinematográfica que privilegia a utilização da película 16mm, através da qual este revela uma preocupação pela ideia de comunidade e utopia e pela pesquisa de formas de viver alternativas ou herméticas, em espaços sociais marginais. O foco da sua obra centra-se, de certo modo, na relação entre o homem e a sociedade.
Russell, por outro lado, é um artista multimédia que desenvolve instalações e performances que articulam o interesse pela história, pelos rituais e pela semiótica das imagens em movimento através de diferentes experiências visuais bastante heterogéneas. A sua investigação articula o início da história do cinema com a antropologia visual e o cinema estruturalista.
Ao longo dos últimos anos e, paralelamente aos seus projetos individuais, os cineastas começaram a desenvolver uma longa-metragem em comum: A Spell to Ward Off the Darkness, que acabou por ser lançada em 2013, com estreia mundial no Festival de Locarno. Nela, apesar das suas idiossincrasias estilísticas, ambos os cineastas esforçaram-se por ir além da sua semiologia cinematográfica de base, na busca de uma espécie de "realismo" transcendental, através duma síntese da etnografia moderna e da estética materialista evidenciada pelos atributos físicos do filme. Este documentário experimental transformou-se numa mistura fascinante dos respetivos métodos, sem deixar de homenagear a individualidade de cada artista.
Meticulosamente estruturado em três partes, o filme parte duma base rígida e predeterminada em relação à natureza mais exploratória do trabalho de ambos. Contudo, gradualmente, vai-se libertando através de um personagem sem nome - protagonizado por Robert Aiki Aubrey Lowe -, o qual vai percorrendo distintos ambientes: uma comuna na Estónia, uma floresta na Finlândia e uma performance de black metal na Noruega.
Este filme motivou o desenvolvimento de projetos de instalação intimamente ligados ao universo criado. A incursão pelo espaço expositivo sempre fez parte dos interesses de ambos que, através de algumas parcerias, ganhou forma na criação de obras de instalação.
A Solar – Galeria de Arte Cinemática, desde muito cedo interessou-se pelos universos de Ben Rivers e Ben Russell, bem como pelo respetivo trabalho colaborativo, e, nesse sentido, entendeu lançar um desafio aos dois artistas para a criação de uma exposição a ter lugar nos espaços da galeria, complementada por um programa paralelo que integrasse a programação do festival deste ano.
A exposição que agora é apresentada deu voz a uma vontade mútua de desenvolvimento duma experiência que, de algum modo, explorasse uma possível articulação com o espaço físico da galeria, em torno dum conjunto de filmes realizados anteriormente pelos dois. O conceito a desenvolver passou por definir uma ideia para um conjunto de trabalhos, com um fio condutor que pudesse adquirir novas leituras nesse espaço, através da sua recontextualização. Pretendeu-se, também, proporcionar ao observador/espetador, uma perspetiva de liberdade e deslocação que lhe permitisse optar e estabelecer uma relação com o espaço, percurso e diferentes filmes/dispositivos apresentados.
A exposição tem como ponto de partida dois projetos individuais.
O primeiro, “Ah, Liberty!”, filme realizado por Ben Rivers e premiado na competição experimental do Curtas em 2008, é apresentado num dispositivo que incorpora, na sala obscurecida, um projetor 16mm e a respetiva projeção em formato scope. Esta forma de apresentação, diversas vezes explorada por Rivers em contexto expositivo, remete o espetador para o ritual da projeção, proporcionando um momento de magia, onde crianças e animais vivem momentos de rara beleza e liberdade no meio do lixo e da natureza. O segundo filme, “ River rites”, realizado por Russell em 2011, é apresentado num dispositivo distinto, já que procura incorporar a projeção no espaço duma outra sala, em diversa lógica escultural. O elemento corpóreo das suas imagens, originalmente rodadas em película 16 mm, é aqui transportado para um jogo que explora a sua transformação e dispersão pela própria matéria no local de projeção. O dispositivo da sala de cinema é abandonado e um novo objeto parece querer adquirir um sentido mágico. O observador é levado a assistir a um ritual de imagens projetadas e refletidas, numa sequência em sentido inverso, de um conjunto de gestos quotidianos e rituais de um grupo de crianças e homens num rio do Suriname. Numa zona destacada do espaço da galeria é apresentada a peça central desta exposição - “A Spell to Ward of the Darkness” -, a qual incorpora três projeções (Black Metal, Commune e Solitude). Esta parece querer romper com a estrutura original da arquitetura do próprio espaço. Tendo como ponto de partida a estrutura rígida que serviu de base ao desenvolvimento do projeto de longa metragem (que explora a deslocação dum personagem por três cenários distintos), esta instalação articula-se através das referidas projeções, colocadas no interior de três construções em forma triangular. Tais construções permitem ao observador vaguear de forma arbitrária pelo espaço das projeções, assim como pelos lugares por onde se desloca o personagem no próprio filme. Esta lógica espacial dá, assim, uma nova dimensão e leitura ao filme, bem como ao papel do próprio observador/espetador, naquele lugar aparentemente mágico, que, tal como o personagem, pode vaguear de forma solitária pela beleza daqueles lugares de utopia. Finalmente, e numa área isolada da cave da Solar, é apresentada outra obra desenvolvida em colaboração pelos dois artistas, a qual nos leva a assistir a um conjunto de rituais e lutas entre um grupo de Vikings, sendo aqueles interrompidos pelo corte ruidoso de sons provenientes de seis leitores vinil a tocar faixas de black metal.
Depois da liberdade e da utopia somos confrontados com o ritual da morte.
Rivers e Russell escolheram quatro peças: dois projetos individuais e dois trabalhos colaborativos, os quais documentam momentos/gestos/gostos/preocupações que, de algum modo, denotam um conjunto de interesses comuns e estiveram na base de algumas colaborações “ocasionais”, tal como os dois gostam de afirmar.
Em RUINS / RITES / RUNES os autores convocam o espetador a viver o cinema como espaço e, nessa experiência, quem sabe, a descobrir o feitiço para afastar a escuridão.
Nuno Rodrigues

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