DO RIO DAS PÉROLAS AO AVE

02.07 - 25.09.2106

João Rui Guerra da Mata

e João Pedro Rodrigues

Alguns realizadores fazem do cinema português um cinema de autor, de grande qualidade e de forte pendor artístico, isto, por oposição ao cinema de ação de pendor mais comercial. O reconhecimento deste facto, pese embora algum cepticismo típico da nossa portugalidade, acaba por ser alicerçado na repercussão mediática que acaba por ter lá fora, sobretudo, pelos ecos da passagem em alguns certames de maior relevo, como são os casos dos festi- vais de Cannes, Berlim, Veneza, Locarno, etc., e, ainda mais, quando alcança algum prémio ou menção. João Pedro Rodrigues é um dos cineastas maiores de um geração renovadora do nosso cinema e figura entre os que desde cedo atingiram uma certa notoriedade, por exemplo, logo pelo impacto con- siderável que sua primeira longa-metragem, “O Fantasma”, de 2000, gran- jeou, ou pela passagem de “Odete” em Cannes, em 2005, e subsequentes críticas francamente favoráveis. Haverá que considerar que o seu trabalho, o mais reconhecido e de filmografia mais extensa, independentemente da assinatura de cada um dos projetos, é realizado em colaboração com João Rui Guerra da Mata. Dessa cumplicidade surgem interações e um diálogo permanente que, muitas vezes, colocam o cinema num outro lugar, que não o da mera relação com o espectador da sala de cinema. Trata-se de uma acepção diversa, de um cuidado que pertence, também, a uma outra esfera, o das artes-plásticas ou, para aumentar a complexidade da abertura a para- digmas mais frequentes noutras áreas da criação contemporânea, das artes performativas. Entre os mais relevantes do cinema português contemporâ- neo, os filmes de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata podem ser considerados dos mais próximos a obras de instalação ou de performance, e, no entanto, não deixam de ser filmes. Eis a principal razão para a direção artística da Curtas Metragens CRL endereçar um convite muito especial a esta dupla de realizadores/artistas, para que concebessem uma exposição, a habitar a Solar – Galeria de Arte Cinemática por um período alargado que abrange, também, o da realização do 24o Curtas Vila do Conde.

A relação dos dois autores com o Curtas é longa e rica de momentos muito intensos, sobretudo com a exibição em programas competitivos das curtas- -metragens que realizaram, ora individualmente, ora em parceria, tal como com as passagens de ambos pelo festival como membros do júri das com- petições nacional e internacional, ou, como autores de uma das curtas do programa Estaleiro, “Mahjong”, estreada em 2013, depois de uma rodagem realizada inteiramente no concelho de Vila do Conde, mais propriamente, na maior ‘chinatown’ portuguesa, situada na Varziela.

A partir desta relação que começou em 1998, aquando da exibição da primeira curta-metragem de produção profissional de João Pedro Rodrigues, “Parabéns!”, e se manteve até hoje, com a exibição das curtas ora por si rea- lizadas, ora por João Rui Guerra da Mata, ora em parceria, fomentou-se uma outra cumplicidade que levaria ao projeto de exposição e programa paralelo que aqui se apresenta. Como seria inevitável, a inegável capacidade criativa dos realizadores/artistas levou à exploração das suas obras segundo fórmu- las de apresentação inusitadas e, em boa parte, pela primeira vez experimen- tadas. Já não são os filmes, são instalações, obras inteiramente originais, que estabelecem um diálogo entre os filmes e o espaço - a configuração sinuosa e recôndita da galeria – materializado em dispositivos e materiais diversos, acrescentado-lhes valor, e abrindo-os a novas leituras.

Mário Micaelo

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