EL PAISAJE ESTÁ VACÍO Y EL VACÍO ES

PAISAJE


Carla Andrade · Espanha · 2017/2018
Retroprojeção de vídeo HD, 15’, cor, som estéreo.
Impressão UV de fotografia sobre plexiglass transparente, lâmpada led, 3 auscultadores, monitor LCD.


A viagem é um processo inerente ao meu processo de criação. A mudança enquanto desejo de desapego, de libertação das verdades únicas universais, tão características da minha educação, para me encontrar, e não tanto compreendendo, mas aceitando que as formas de conhecimento são ilimitadas. Deste modo, “El paisaje está vacío y el vacío es paisaje” nasce de uma dessas deslocações em busca de outras formas de entender o mundo.

Através da experiência direta do deserto de Atacama e dos fenómenos e transformações que aí ocorrem, retiro a cosmovisão integrada própria da filosofia andina, na qual os fenómenos naturais estão intimamente ligados aos fenómenos míticos e à vida social. Uma realidade em que, como refere a afirmação do poeta coreano Dalchin Kim que dá título à instalação, não existe reconhecimento discriminatório nem incompatibilidades entre termos antagónicos, pois as coisas não têm o valor do reflexo. Tudo está interligado, relacionado e é recíproco. Ao contrário da existência separada e mónada, ens inquantum ens (o ser enquanto ser), sobre a qual assenta a metafísica ocidental.

Partindo deste princípio de interconexão e coexistência, o filme central é disseminado e desintegrado por toda a sala, submergindo o espectador num espaço tetradimensional em que certas camadas de significado, que no filme se mantêm ocultas, ganham forma fora do ecrã. Observamos o que está longe e é desconhecido e, ao mesmo tempo, o que temos mais ao pé; a Pachamama; palavra polissémica que, na língua quechua, se refere ao conjunto do cosmos e da natureza. Além disso, filosoficamente, Pacha significa "universo ordenado em categorias espacio-temporais”, mas não como algo simplesmente físico e astronómico. Deste modo, aproximamo-nos destas outras esferas através de peças sonoras cujas vozes, em quechua, sânscrito e inglês acompanham imagens estáticas. Estas vozes, que representam três sistemas de conhecimento distintos e simbolizam os três camadas de realidade relacionadas entre si, em que se divide Pacha [hanaq pacha, kay pacha e uray pacha], questionam a língua não apenas como mecanismo de expressão de ideias, mas também de relações metafísicas.

Nesta espécie de “laboratório cósmico”, que esta instalação recria, não existe lei da gravidade, apenas lei da levitação. A interpretação da realidade apresenta-se como uma fusão entre experiência e intelectualização e, por essa razão, desafia o discurso hegemónico de produção e receção do conhecimento.



Carla Andrade

Carla Andrade (Vigo, 1983) é artista visual formada em Comunicação Audiovisual e a estudar Filosofia. Realizou residências artísticas em países como Islândia, Suécia, Nepal ou Chile. O seu trabalho, principalmente fotográfico e de vídeo, tem sido exposto em centros de arte contemporânea como o Museu Guggenheim de Bilbao, o Marco de Vigo, o CGAC de Santiago de Compostela, o Museu do Traje de Madrid, o ele 104, em Paris, e em festivais como PhotoEspaña, Mois de la Photo Off de Paris, entre outros. Vencedora do Prémio Jovem de Artes Plásticas 2013 da Universidade Complutense de Madrid, Prémio Artistas Emergentes Absolut Casa / Arte 2013, Prémio de Aquisição Franc Vila 2013 da Galería Luis Adelantado, Prémio Mulheres-Fórum-Diálogo Alliance Française (PHotoEspaña 2012) entre outros. Foi premiada com uma bolsa de Criação Artística Gas Natural Fenosa, ajudas à Criação Jovem Madrid da INJUVE, da Fundação BilbaoArte e da VEGAP. Destaca-se a sua colaboração com o cineasta Lois Patiño, com quem colaborou nos últimos dois projetos “Costa da Morte” e “Montaña en sombra", filmes premiados a nível internacional

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