NEW SPAIN

José Manuel López


“De todas as histórias da História – escreveu o poeta Jaime Gil de Biedma – a mais triste é sem dúvida a de Espanha, porque acaba mal”. Quando se nasce em Espanha, obtém-se automaticamente uma certidão de náufrago da história, “como se o homem, farto de lutar com os seus demónios, quisesse acabar com essa história desse país de todos os demónios”, conclui Gil de Biedma na voz do cantautor Paco Ibañez, que pôs música nas suas palavras. Antes desse fim da história, aquela Espanha Imperial que tratava de inculcar a hispanidade e o catolicismo no resto do mundo tinha como lema Plus Ultra («Mais além»), duas palavras que ainda figuram na bandeira e no escudo espanhóis. Contudo, inclusivamente quando o Reino era jovem e a sua História ainda estava para vir, Espanha já estava a tratar – sem saber – de se refundar. Assim, com a arrogância pomposa do conquistador, as elites da época chamaram Nueva España ou New Spain ao primeiro vice-reinado espanhol nas “Índias” recém-descobertas, um território que nessa altura se estendia desde a América Central até ao norte da Califórnia e desde São Francisco até Cuba, passando por uma grande parte do atual Texas.

Expandir-se, empenhar-se mais além das suas fronteiras – é esse o sonho de qualquer império; um sonho a que se segue sempre um duro despertar com um travo a utopia gasta e a epitáfio. Desde então, a «marca Espanha» tratou de se refundar em ocasiões múltiplas. O escritor galego Castelao, por exemplo, chamava Hespaña (Hespanha) a esse novo país que se devia refundar uma vez mais, acrescentando-lhe o H inicial de Hispania para assim contornar toda a ascendência do velho Reino de Castilha. E a Espanha contemporânea não é, obviamente, uma exceção: política e socialmente fragmentada, diluída na fantasia da “Europa”, fustigada pela enésima crise sistémica (“a nossa famosa pobreza imemorial”, dizia Gil de Biedma), os 506 030 km² da sua configuração atual tornaram-se um território difuso (as suas fronteiras estão perfeitamente delimitadas, ao contrário da sua identidade). A sonhada utopia espanhola acabou por se transformar numa inevitável atopia (uma anomalia, algo de estranho e fora de lugar), pelo que também as suas imagens serão apátridas: imagens sem lugar de um lugar sem imagens.

A ideia de Espanha já não está (se é que alguma vez esteve) na sua geografia e os artistas que compõem esta exposição parecem buscá-la plus ultra, mais além das suas fronteiras, ou questionar diretamente essa ideia, como o fazem Helena Girón e Samuel Delgado em No hay tierra más allá. Uma Espanha atópica para abandonar (como o fizeram tantos jovens espanhóis) ou, ao menos, para reinventar ou reimaginar através de imagens que não são de Espanha, mas que a evocam constantemente. Quando iniciámos o processo de seleção de obras para esta exposição, uma característica comum foi-se manifestando num grande número dos nomes considerados: muitos se encontravam fora de lugar, vivendo ou trabalhando mais além das fronteiras de Espanha, todos eles errantes, em busca de novas imagens e de novos sons, como o caminhante de Winterreise de Franz Schubert, em que Inés García se inspirou para a sua instalação homónima. Um ciclo de vinte e quatro canções para piano e voz sobre um homem que vive um desgosto amoroso e inicia uma viagem rumo ao desconhecido: “Como estrangeiro cheguei, como estrangeiro volto a partir”, ouve-se na primeira delas.

O resultado dessa atopia comum é esta New Spain, uma exposição de cineastas espanhóis em que Espanha fica fora do quadro, como um não-lugar erguido sobre imagens des-situadas que se buscam no seu exterior (desde o próximo Marrocos ao deserto de Atacama no Chile, ambas antigas colónias espanholas, passando por paragens nevadas da Áustria ou pelo interior dos EUA) ou na tela desvanecida da sua própria história (desde o esquerdismo político dos anos 70 à colonização das Ilhas Canárias no século XV, antecâmara e preparação da conquista da América). Seis instalações site-specific que exprimem a visão de um grupo de artistas, quase todos nascidos na década de oitenta, acostumados a trabalhar fora do seu país de origem. Em New Spain o gesto estético une-se ao gesto político, mas sem altifalantes nem palavras de ordem pois, como afirma Laida Lertxundi a propósito de 025 Sunset Red, todos eles buscam o modo como “o político pode começar, determinar uma vida, formar uma sensibilidade e inscrever-se num corpo”. A viagem e a deslocação – não só físicas, mas também através do relembrar, como no caso de Lertxundi – sempre foram uma ferramenta para “compreender” o mundo, para se sair e voltar estrangeiro de si mesmo, para se desterritorializar (isto é, para se desprender do território familiar como quem se desprende da roupa que vestiu ao longo do dia).

«Mas eu já não sou eu / e a minha casa já não é minha casa», escreveu Federico García Lorca. E esse é o momento preciso da constatação de que há-que partir – apesar de o próprio Lorca não o ter feito – em busca de um novo lugar, de novas paisagens que se tornarão paisagens emocionais e espaços mentais (porque, sabemo-lo bem, qualquer paisagem é sempre uma projeção, uma ferida interior). As instalações de New Spain habitam esta paisagem emocional, que é também um lugar mental: os seus autores vivem ou trabalham fora de Espanha, deslocam-se para outro lugar – ou para outro tempo, talvez – e filmam-no em película ou gravam-no em formato digital, mas estas “imagens sem Espanha” remeterão, uma e outra vez, para uma Espanha que será sempre evocada, invocada inclusivamente como um fantasma (ou, no caso de Helena Girón e Samuel Delgado, como uma múmia indígena das Ilhas Canárias, também ela deslocada e fora de lugar, pois conserva-se num museu de Madrid). Essa será literalmente a operação levada a cabo por Natalia Marín em New Madrid, “um ensaio sobre as utopias falhadas”, sobre o simulacro e os lugares construídos como cópias, em que Marín busca e encontra as oito povoações que se chamam Madrid nos Estados Unidos e se dá conta, nas suas próprias palavras, de que em algum momento da sua curta história esses oito projetos urbanos fracassaram. A história, evidentemente, repete-se. Laida Lertxundi, residente de Los Angeles há anos, leva a cabo um processo similar em 025 Sunset Red: a partir das paisagens reconhecíveis do Oeste norte-americano, dá forma a uma “autobiografia abstrata” em que recorda a sua infância no País Basco, no seio de uma família de comunistas, durante os últimos anos da ditadura franquista.

Finalmente, em New Spain conflui também uma segunda atopia: trabalhando tanto com a materialidade e a “gravidade” da película de cinema (Inés García, Helena Girón e Samuel Delgado, Laida Lertxundi), como com a virtualidade e a “leveza” do vídeo digital (Lois Patiño, Natalia Marín, Carla Andrade), estes sete artistas encontram-se fora de lugar tanto na sala de cinema como na galeria de arte, se é que tal diferenciação continua a ter sentido hoje em dia: esta New Spain é – e não podia ser de outro modo – um território híbrido, sem fronteiras, entre a “caixa branca” do museu e a “caixa negra” do cinema. Porque a imagem contemporânea não pode prescindir nem da luz do museu nem da escuridão do cinema, nem do dia nem da noite (o departamento solar e o departamento lunar, como os descreveu uma vez o fotógrafo Jeff Wall). O resultado desta dupla atopia são imagens e sons alienígenas, lunares, como os desertos de 025 SUNSET RED de Lertxundi, de The Landscape is Empty and Emptiness is Landscape de Carla Andrade ou de Fajr de Lois Patiño, em que para mais ouvimos o adhan, o cântico de chamada à oração que vem das mesquitas antes do aparecimento do disco solar; como os Alpes nevados percorridos por Inés García em Winterreise, acompanhada apenas pelas palavras das canções de Schubert; ou como os sons do Atlântico captados com hidrofones por Helena Girón e Samuel Delgado em No hay tierra más allá, uma imersão acrescentada pela presença em sala de um cubo que contém água desse mesmo oceano que em tempos uniu a Velha à Nova Espanha.

© 2018 Curtas Vila do Conde