Purpleboy na Solar - Galeria de Arte Cinemática.

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Primeiros estudos visuais para

Primeiros estudos visuais para "Purpleboy"

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Nota de Autor

Alexandre Siqueira

Tornei-me muito sensível ao tema da identidade de gênero depois de ler o livro “Viagem Solitária", que conta a história do autor João W. Nery, o primeiro transexual a ser operado no Brasil. Ele fala da infância triste e confusa de um menino tratado como menina, do difícil percurso na adolescência até chegar a fase de autoafirmação. Vivi os meus primeiros 7 anos de vida no Brasil. Foi o início dos anos 80 e o fim de um regime de ditadura militar que durou 21 anos. Nessa fase pôs-se em prática vários atos institucionais, a supressão das liberdades individuais e o estabelecimento de um código de procedimento criminal militar que permitiu que o exército e a polícia prendessem e aprisionassem sem direito a uma proteção jurídica, qualquer “suspeito". Meu pai foi paraquedista militar por 15 anos durante esse período. Baseei-me em muitas memórias de infância para criar a relação entre o protagonista da história e o seu pai.
Oscar é um menino transgénero e é o protagonista da história. Como Oscar está enraizado e seu corpo ainda está em desenvolvimento, seus pais não sabem o sexo da criança. No entanto, o pai tem certeza de que ele é um menino. Por outro lado, o instinto materno faz acreditar que é uma menina. A criança vê o seu pai como um herói. Influenciado por diversos estereótipos do universo masculino, Oscar quer tornar-se como ele. No decorrer da história, o menino exige que seja tratado como um "homem", exprimindo-se verbalmente. Ele reivindica os símbolos da masculinidade, como o avião, a bola de futebol e o corpo masculino em geral - Oscar desenha um bigode no rosto.
A floresta tem uma carga simbólica muito forte em Purpleboy. Representa a sociedade patriarcal, com claras influências do período da ditadura militar brasileira nos anos 70. Nessa floresta, vivem os meninos-lobos, personagens grotescas, frutos de uma educação machista. Desde cedo aprendem com os mais velhos a repudiar e a repreender aqueles que são diferentes da “norma". Oscar é a única personagem humana na história. A mãe de Oscar é uma galinha, a única personagem feminina. Todos os personagens secundários masculinos são lobos, que fortalecem o vínculo entre o pai militar e os habitantes da floresta, criando uma espécie de camaradagem entre eles. Essa conexão é complementada pelo status quo representado pelos meninos lobo, que assumem as influências de um regime opressor, vestindo uniformes militares. A escolha de dar um espírito fabulista, com animais antropomórficos, permite acentuar a diferença entre Oscar e todos os outros, destacando seu lado bestial e primário como metáfora da sociedade sexista. Essa característica desaparece no final apenas na mãe-galinha, uma vez que ultrapassa as convenções ao aceitar as escolhas do seu filho, tornando-se afetuosa, mais humana.

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