Diogo Costa Amarante

Encontrar alguém a fotografar ou a fotografar-se tornou-se um elemento constitutivo de toda a paisagem. A constante produção de imagens para disseminação em massa através das ditas redes sociais parece estar a esgotar, à semelhança do que acontece com a sobre-exploração dos recursos naturais, a possibilidade de renovação de qualquer lugar: os miradouros apoderaram-se das serras e a poeira dos caminhos foi varrida para debaixo de trilhos alcatifados. Décors esvaziados de surpresa, senão mesmo cenários de uma certa frustração – quando o reconhecimento se substitui à descoberta tudo é, invariavelmente, mais vulgar e pequeno do que se imaginava –, os espaços foram tomados por um círculo vicioso em que a deceção parece alimentar ainda mais a compulsão para a captura de imagens que, por sua vez, aceleram o fenómeno de exaustão. A mercantilização da paisagem é um negócio que move milhões e multidões e a indústria do turismo de panos de fundo, que vende os décors ideais para selfies, tornou-se no próprio pano de fundo do turismo. Tudo – um país, uma esquina, uma cidade, uma cascata tropical, um prato típico, um beco sem saída ou, numa versão mais exclusiva, o espaço sideral – é tanto mais visto como exótico quanto for reconhecível: tudo é produto, marca, experiência. A mera deambulação, o passeio sem programa nem propósito, o olhar distraído que permitia descobrir o que não se procura, são vagas recordações do passado. O recreativo, aquilo que se entendia como tempos livres, foi impiedosamente colonizado pelo trabalho. Saído da fábrica ou do escritório, aproveitando a folga ou os cinco minutos que restam da pausa de almoço, domingos, férias e feriados, após as horas de expediente o operário entrega-se sem descanso à árdua fabricação de uma mitologia pessoal. Armado de um “smartphone”, esse instrumento mágico que veio despertar em cada um de nós o instinto do caçador, adormecido desde os tempos do paleolítico, o trabalhador viaja dia e noite, vende a casa ou pede um empréstimo e vai onde for preciso para colecionar os lugares mais fotogénicos. Esticando o braço, com um sorriso vincado, pose lasciva, só ou rodeado pela família, contemplando o pôr do sol ou surpreendido num gesto humanitário, goza o triunfo de uma, duas, três, mil imagens que mostram e demonstram a todos um “eu sou”, “eu estou aqui”. A modernidade é isso: uma existência que depende, antes de mais, do olhar dos outros e a convicção de que se é aquilo que se conseguir fazer acreditar os outros que somos. No meio de tantos disparos, num turbilhão de imagens que é uma fuzilada fotográfica, a “selfie” inscreve-se numa longa tradição iconográfica que remonta pelo menos à idade média: ela é versão contemporânea dos motivos consagrados como “vanitas, memento mori”, confirmação permanente da morte, da sua própria morte afogada numa vertigem torrencial de clichés que, pretendendo negá-la, mais não fazem do que fatalmente acelerar o desfecho inevitável.
“Et in arcadia ego”.

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