1. SELFIE MAD(E) MEN


Nem só de antropologia se faz cinema
mas à luz do que julgamos saber
acerca da mais-valia do erro na ciência
onde encontrar instrumento mais apropriado
do que uma câmara envolvendo-se com os gestos humanos
para, juntar o observador ao observado,
matar dois coelhos duma cajadada?


A selfie convoca a presença do décor
suplicando inscrição no mundo.
Essa presença vem a ser fantasmática
na razão direta da subserviência à imagem.


A selfie resulta talvez
da incapacidade de encarnar o narcisismo
(de carregar com ele como fardo e farda)
e dessa impotência decorre
a importância do cenário
real ou virtual.
E também a oportunidade
dum simulacro de dramaturgia:
colocar fora da cabeça
as emoções de trazer por casa.
Cabeça perdida causa ganha?


E porque será tão difícil
ao fotógrafo de si
que habitualmente não é contorcionista
concentrar-se a sério no seu umbigo
como se pede ou se tolera ao artista?


A selfie gostaria de ser selfish
porém o individualismo plenamente fruído é-lhe vedado
não apenas pela suspeita de outras selfies concomitantes
como sobretudo
pela indistinção entre o desejo de se expor e o de se esconder.


Então a selfie inspira-se
modestamente
da invenção dum olhar que sacia como uma refeição
dum sorriso que protege como uma arma de autodefesa.
Etc.


Em que difere o fotógrafo amador de si
e o pintor fechado dentro de si com o seu modelo?
A pergunta é escorregadia e a resposta espinhosa...
Porque,
como é consabido,
as viagens que não fizemos fazem-nos viajar
as pessoas que não amámos transformam-nos em amor.


Assim como assim
trazer o fora de cena para dentro dela
é um gesto de cineasta
ou seja
dum coração que vê a estrada e a berma
e até o beijo fictício que une ou separa.


Por saber que almas andam perdidas
e se danam por perdição não sem razão,
o cineasta de tudo se esforça por fazer
(como propunha Pessoa)
verdade e caminho.


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