Nossa Senhora da Apresentação

Abi Feijó, Alice Guimarães, Daniela Duarte e Laura Gonçalves
Portugal, 2015, ANI, HD, Cor, 6'


O resgate de um poema, escrito pelo neorrealista √Ālvaro Feij√≥ em 1940, tr√°-lo de volta aos dias que o imitam. Instalando-se lentamente no cora√ß√£o de homens e mulheres, tornando-os ref√©m da sua Gra√ßa, ei-la revelando toda a sua natureza, ao mesmo tempo que pronuncia, sem miseric√≥rdia, o seu nome.

Curta-metragem de anima√ß√£o desenvolvida em stop-motion e pixila√ß√£o no decurso da resid√™ncia art√≠stica de Abi Feij√≥, integrada na Rua Animada / Animar 9, no √Ęmbito da programa√ß√£o da Solar ‚Äď Galeria de Arte Cinem√°tica. Contou com a participa√ß√£o das realizadoras Alice Guimar√£es, Daniela Duarte e Laura Gon√ßalves. O projeto teve como ponto de partida o poema ‚ÄúNossa Senhora da Apresenta√ß√£o‚ÄĚ do poeta neorrealista √Ālvaro Feij√≥.

Nossa Senhora da Apresentação

O altar as vagas
o dossel a espuma!
Missas rezadas pelo vento,
ora pelos fiéis defuntos que se foram
noutras vagas.
Ora pelas barcaças que, uma a uma,
buscaram as sereias na dist√Ęncia
e se foram com elas.
Sobre o altar, entre círios, que não são
os círios murchos das igrejas velhas
mas o lume de estrelas,
ELA,
Nossa Senhora da Apresentação.
Aquela
que não tem mantos da cor do céu,
nem fios d'oiro nos cabelos,
nem anéis nos dedos;
aquela
que não traz um menino nos seus braços
porque os seios mirraram
e já não têm pão para lhe dar;
aquela
que tem o corpo negro e sujo
e os ossos a saltar
da pele
e dos rasg√Ķes da saia e do corpete;
Nossa Senhora da Apresentação
da Beira-Mar,
que tem capelas
em cada peito de marinheiro,
que morre e, num instante,
se renova
e que anda
quer nos engaços do sargaceiro
ou nas gamelas do pilado
e palhabotes da Terra Nova.
Aquela
a quem todos adoram.
Dos meninos
feitos nos intervalos das campanhas,
aos bichanos que limpam de cabeças
e tripas de pescado
as muralhas do cais.

O dossel a espuma.
O altar das vagas
‚ÄĒ e que altar enorme! ‚ÄĒ
Entre círios de estrelas,
Nossa Senhora da Apresentação
e Justificação
‚ÄĒ a Fome!


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