Em 2006, a propósito do trabalho do Teatro Bruto Alter-Ego, que cruzava o teatro e o cinema, a Luena propôs-me trazer também a fotografia para este dueto, através de um trabalho fotográfico sobre as salas de cinema da cidade do Porto, algumas actualmente encerradas ou com actividades paralelas à exibição de filmes. Procurar as imagens, os fantasmas, as memórias e particularidades de cada sala.
Abertas as portas e acessas as luzes a vida volta a encher estes espaços como aquelas cenas dos filmes em que se acende a luz do parque de festas e lentamente começa a ouvir-se o som dos carrosséis e das pessoas ao fundo.
Assim que as luzes se acendem a vida volta, sem marcas da ausência das pessoas.
Sentem-se os cheiros, são visíveis as marcas das histórias que se viveram, nas imagens, nos recados, nas fotografias, em todas as provas de memória.
Sempre que me sentava numa das cadeiras a olhar para a tela, quase conseguia sentir o ruído das pessoas a chegar para a próxima sessão.
Como se estes momentos em que estou a fotografar, fossem apenas pequenos intervalos de tempo, entre sessões, entre filmes, entre histórias.

Foi no Porto que tudo começou há pouco mais de um século atrás. Pela mão de Aurélio Paz dos Reis, considerado o pioneiro do cinema em Portugal, os portuenses puderam assistir ao filme “A Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança”. Realizado e produzido por Paz dos Reis, este filme é uma réplica do primeiro da história do cinema “La Sortie de l'usine Lumière à Lyon”, rodado em França pelos irmãos Lumière um ano antes, em 1895.
O cinematógrafo inventado pela família Lumière foi então apresentado em sessão pública no Teatro do Príncipe Real, mais tarde chamado Teatro Sá da Bandeira, no dia 12 de Novembro de 1896. As primeiras exibições cinematográficas decorriam simultaneamente na Feira de S. Miguel, num campo que anos depois deu lugar à Rotunda da Boavista. O barracão de madeira tinha o nome aparatoso de Salão High-Life e era animado por Edmond Pascaud, um recém-chegado à cidade com as novidades de França, que se associou a António Neves, marcando o percurso da exibição cinematográfica no Porto até aos nossos dias. Estas duas figuras, às quais se juntaria mais tarde Luís Neves Real, um dos grandes cineclubistas portugueses, foram determinantes na divulgação do cinema como espectáculo, divertimento e veículo de cultura.
O local depressa se revelou inadequado, mudando-se dois meses depois para um auditório mais vasto, no Jardim da Cordoaria, onde permaneceu durante dois anos. A 29 de Fevereiro de 1908, a sala voltou a mudar-se, desta vez de forma definitiva, para um requintado edifício na Praça da Batalha, apresentando-se como Novo Salão High-Life. Em 1913 fixava-se como Cinema Batalha. Nos tempos que se seguem surgem novas salas exclusivamente dedicadas à projecção de filmes. O Salão-Jardim Passos Manuel, inaugurado em 1908, era a mais famosa casa de espectáculos do Porto. Aí esteve localizada, temporariamente, a Invicta Film, um dos primeiros grandes estúdios portugueses. O Salão Trindade, da empresa Neves & Pascaud, inaugurado em 1913, limitava-se ao cinema mudo. Também os teatros apresentavam pequenos filmes nos intervalos dos espectáculos, nomeadamente o Teatro Nacional Rivoli, o Carlos Alberto e o Sá da Bandeira.
Nas décadas seguintes, com o advento do cinema sonoro, a cidade do Porto assistiu ao nascimento de uma nova geração de salas, estética e tecnicamente mais cuidadas: o novo Teatro Rivoli em 1926 e oito anos depois o Teatro S. João, com a sala S. João-Cine.
O actual Cinema Batalha, inaugurado em 1947, foi durante muito tempo palco dos ciclos promovidos pelo Cineclube do Porto.
Após uma fase de decadência, o Salão-Jardim dá lugar, em 1941, ao Coliseu do Porto e à pequena sala Passos Manuel. Também a sala Júlio Diniz inicia actividade nesta altura, entre várias outras cujos edifícios não chegaram aos nossos dias.
Na década de 70 continuarão a nascer novas salas, com contornos de modernidade, muitas delas associadas à expansão dos espaços comerciais.
O cinema Pedro Cem e as duas salas do centro comercial Stop são disso exemplo, assim como o Charlot Cinema, situado no interior do centro comercial Brasília. O Foco foi inaugurado em 1973 e, um pouco mais tarde, surge também o cinema Nun’Álvares.
Esta década marca o início daquilo que viria a ser a época negra para os cinemas do Porto, que entram em colapso em meados dos anos 90, mediante a afirmação de um novo conceito, que congrega num único local, os centros comerciais, uma multiplicidade de salas e de escolhas.
Em 2000, o número de espectadores do Cinema Trindade desceu para 7,3, encerrando definitivamente no dia 1 de Janeiro de 2001; a sala Júlio Dinis transforma-se em danceteria e o cinema Nun’Alvares, representado pela Medeia Filmes na última fase, é o último a fechar em 2004.
A desertificação dos centros das cidades e a proliferação das grandes superfícies comerciais são as principais causas apontadas para o desaparecimento do público das tradicionais salas de exibição de cinema. Contudo, nos últimos anos, tem-se assistido a um pequeno movimento de regresso à baixa, experimentado por uma geração que procura o centro da cidade para habitar, para o comércio alternativo e também para diversão. Hoje podemos de novo entrar no Batalha ou no Passos Manuel, transformados em salas de espectáculos e espaços de diversão nocturna, alguns dos quais com exibição cinematográfica alternativa, como é o caso do Passos Manuel. Também o cinema Trindade está a ser palco de eventos cinematográficos alternativos, como é o caso da extensão ao Porto do Festival Indie Lisboa, em Maio de 2008.
O cinema no Porto e toda a cultura que lhe está associada constitui um património valioso e pouco divulgado.
A necessidade imediata é apenas uma: evitar o esquecimento e registar na memória, para não deixar que a tela se apague.

Mafalda Martins a partir de www.cinemasdoporto.com

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