© Gil Ramos

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Cortesia M√ļrias Centeno <br />
Créditos fotográficos: Bruno Lopes

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João Mourão e Luís Silva



Prólogo I: uma história sucinta

O Convento de Santa Clara, localizado no centro da cidade de Vila do Conde, no topo de um monte, foi uma das mais maiores casas religiosas femininas portuguesas. Institu√≠do em 1318, por iniciativa de D. Afonso Sanches, filho bastardo de D. Dinis, e de sua esposa, D. Teresa Martins, a sua atividade foi diminuindo como consequ√™ncia do decreto liberal de extin√ß√£o das ordens religiosas de 1834, at√© chegar ao seu termo, em 1892, com a morte da √ļltima freira. Uma d√©cada depois, j√° no s√©culo XX, o edif√≠cio veio a receber a Casa de Deten√ß√£o e Corre√ß√£o do Porto, posteriormente, Reformat√≥rio de Vila do Conde e Escola Profissional de Santa Clara, sendo aproveitado para centro educativo (estabelecimento de tutela de menores), que em 2010 se mudou para novas instala√ß√Ķes, deixando o convento ao abandono. Em setembro de 2008, o Turismo de Portugal e o Grupo Pestana, propriet√°rio da rede das Pousadas de Portugal, assinaram um contrato para a transforma√ß√£o do im√≥vel numa estrutura hoteleira, sem que, no entanto, tal alguma vez viesse a concretizar-se. Nos √ļltimos anos, e como resultado do seu abandono, o convento foi gradualmente ocupado de forma ilegal, o que levou √† sua crescente degrada√ß√£o. Tal situa√ß√£o parece ter sido temporariamente invertida com a organiza√ß√£o de uma interven√ß√£o c√≠vica, dando in√≠cio a uma recupera√ß√£o superficial e limpeza do edif√≠cio, atualmente em curso.


Prólogo II: uma psicogeografia local

O Convento de Santa Clara domina todo o centro da cidade de Vila do Conde. Se tal posi√ß√£o sinalizou, em tempos, e durante v√°rios s√©culos, o poder das religiosas sobre a popula√ß√£o local, o s√©culo XX veio assistir √† reconvers√£o do edif√≠cio em s√≠mbolo do poder da ditadura sobre o cidad√£o empobrecido e, mais recentemente, em s√≠mbolo de um certo esvaziamento ideol√≥gico que nos √© contempor√Ęneo e a sua conforma√ß√£o √†s l√≥gicas do mercado. A escala desmesurada do edif√≠cio, e a sua natureza perif√©rica na regi√£o onde se insere n√£o o configuram como um investimento rent√°vel, sendo assim votado ao que √© comummente entendido como abandono. √Č assim um gigante abandonado, esvaziado de qualquer forma de poder institucional, que preside aos destinos da cidade. Quem erguer os olhos diariamente, vislumbra nada mais do que um vazio, um desmesuradamente grande e pesado vazio no centro da cidade, sem quaisquer possibilidades concretas de convers√£o em algo com significado para a popula√ß√£o local, regional, ou mesmo nacional. A incapacidade para imaginar o futuro passa pela incapacidade de imaginar o futuro do Convento, acorrentado √†s narrativas do passado, por um lado, e √†s incertezas e incoer√™ncias do presente, por outro.


Prólogo III: Uma abordagem contextual

O trabalho de Carla Filipe tem vindo a debru√ßar-se, recentemente, sobre um conjunto de narrativas hist√≥ricas, pol√≠ticas e sociais que deram corpo ao que constitui o Portugal contempor√Ęneo. Recorrendo muitas vezes a epis√≥dios concretos da sua biografia como ponto de partida para investigar momentos centrais da hist√≥ria contempor√Ęnea portuguesa, ainda que arredados das grandes narrativas que enformam o pensamento hist√≥rico nacional, o trabalho de Carla Filipe tem vindo a explorar, atrav√©s de estrat√©gias de pesquisa arquiv√≠stica, ou mesmo no limite do que podemos considerar pesquisa etnogr√°fica e arqueol√≥gica, e de uma forma √ļnica e idiossincr√°tica, a interse√ß√£o do pessoal (e fundamentalmente subjetivo) com o social e o pol√≠tico, tra√ßando uma forma de ontologia do objeto hist√≥rico que √© inextric√°vel do sujeito individual e da sua rela√ß√£o com o que o rodeia. Projetos recentes como As primas da Bulg√°ria (2012-2013), em que a partir da viagem de duas primas suas, Tila e Milita, para a Bulg√°ria, ap√≥s a revolu√ß√£o de 25 de Abril de 1974, para prosseguirem o ensino superior, tra√ßa um retrato do √™xodo de parte de uma gera√ß√£o de jovens para os pa√≠ses do ent√£o bloco socialista como forma de educa√ß√£o profissional e tamb√©m, e porventura sobretudo, ideol√≥gica e, consequentemente, da rela√ß√£o do pa√≠s com os desafios pol√≠ticos presentes imediatamente ap√≥s a revolu√ß√£o. De forma n√£o dissemelhante, em da cauda √† cabe√ßa (2014), projeto que apresentou recentemente no Museu Cole√ß√£o Berardo, em Lisboa, Filipe parte da sua viv√™ncia di√°ria dos caminhos de ferro, enquanto filha de uma guarda de passagem de n√≠vel, para mapear o desenvolvimento, estrutura√ß√£o e moderniza√ß√£o do pa√≠s atrav√©s da introdu√ß√£o/constru√ß√£o dos caminhos de ferro e, mais recentemente o seu abandono e substitui√ß√£o pelo transporte individual como a forma preferida, de um ponto de vista pol√≠tico, de desenvolvimento social. Em ambos os casos, tal como em outros, o pessoal e o social cruzam-se de tal maneira que um racioc√≠nio ancorado a premissas de causa-efeito deixam de ser operativas. √Č o sujeito, e a comunidade em que se insere, que delimita o pol√≠tico e o hist√≥rico, ou, por sua vez, s√£o estes √ļltimos que definem o que o sujeito √©? A rela√ß√£o n√£o s√≥ n√£o √© tornada expl√≠cita, como Felipe n√£o deseja, ou n√£o acredita, que tal seja poss√≠vel, cabendo ao visitante pensar essa rela√ß√£o, complexificando-a e problematizando-a a partir das premissas que a artista providencia.

A biografia da artista n√£o √© sempre, por√©m, o ponto de partida para as suas investiga√ß√Ķes especulativas ou, pelo menos, n√£o de forma consciente e intencional. Projetos como o povo reunido jamais ser√° - representa√ß√Ķes gr√°ficas (2010), apresentado no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, onde a artista cruza o grafismo de cartazes pol√≠ticos, a que retirou todas as refer√™ncias textuais, deixando apenas cores e formas que se insinuam enquanto mem√≥ria de um gesto de protesto, com a atmosfera contestat√°ria das coletividades locais de meados do s√©culo XX, ou Desterrado (2010), projeto desenvolvido para a Manifesta 8, em M√ļrcia, onde abordou a quest√£o das migra√ß√Ķes ilegais, criando uma instala√ß√£o com cimento produzido com √°gua do Mar Mediterr√Ęneo e trazendo para o interior do espa√ßo expositivo uma para-arqueologia constitu√≠da por objetos recolhidos durante caminhadas pela cidade, desde roupas abandonadas, an√ļncios de emprego ou imagens de graf√≠tis, s√£o exemplos de como Filipe parte do pr√≥prio contexto em que determinado projeto √© apresentado para desenvolver um extenso e detalhado trabalho de campo cujo resultado torna vis√≠vel, mais uma vez, a tens√£o entre narrativas subjetivas e for√ßas hist√≥rico-sociais.


N√£o fechar nada, voltamos todos os dias

N√£o fechar, voltamos todos os dias, a proposta que Filipe agora apresenta, inscreve-se, tal como as mencionadas anteriormente, numa l√≥gica de investiga√ß√£o e problematiza√ß√£o do contexto em que o projeto √© desenvolvido e apresentado. Interessada pelo Convento de Santa Clara, e sobretudo pelo seu estatuto atual no contexto social, pol√≠tico e econ√≥mico da cidade de Vila do Conde, a artista colocou em marcha um processo de trabalho que incluiu visitas ao edif√≠cio, entrevistas a pessoas que estabeleceram uma atividade profissional ligada em determinado momento ao convento, bem como a recolha de material abandonado ainda existente no edif√≠cio, antes da sua entrada em obras. Este trabalho de campo, ainda que partindo da hist√≥ria recente do convento, das fun√ß√Ķes que desempenhou ao longo do s√©culo XX, seja como centro de reclus√£o, estabelecimento correcional para menores ou escola profissional, n√£o tem como objetivo uma arqueologia social do que se passou no interior do convento. A Filipe n√£o lhe interessam tanto as hist√≥rias de quem habitou o convento, dos delinquentes reeducados ou dos seus captores-educadores do passado, ou dos "delinquentes" atuais que, at√© h√° bem pouco tempo, habitavam o edif√≠cio, configurando uma nova fun√ß√£o utilit√°ria, ainda que mantendo isolado do resto da cidade, de forma n√£o premeditada ou definida intencionalmente, aquilo que n√£o √© socialmente aprovado. Tal interesse seria problem√°tico tendo em conta os pressupostos que enformam a pr√°tica de Filipe, prendendo o trabalho numa esp√©cie de armadilha emocional, e constrangido-o a uma dimens√£o afetiva que se encontra nos ant√≠podas do que Filipe procura. Pelo contr√°rio, todo o projeto pretende debru√ßar-se sobre o espa√ßo f√≠sico, sensorial e psicol√≥gico que o Convento de Santa Clara delimita e projeta, do alto do monte que ocupa, na cidade.

Assim, n√£o ser√° de estranhar que uma imagem bastante real e tang√≠vel desse espa√ßo seja transportada do pr√≥prio convento para o espa√ßo expositivo. Parte das estruturas que definiam os quartos dos internos, em metal e contraplacado de madeira, foi desmontada e transportada para o espa√ßo expositivo onde se encontra agora remontada. Esta constru√ß√£o tridimensional apresenta-se como uma figura geom√©trica simples, uma abstra√ß√£o constru√≠da com materiais marcados pela passagem do tempo, pela fun√ß√£o que desempenharam e pelo abandono. Outros elementos, tamb√©m eles resgatados do convento antes da sua entrada em obras, encontram o seu novo lugar na exposi√ß√£o. Pinturas e objetos constru√≠dos pelos internos funcionam como mem√≥ria de como o tempo no interior do convento era preenchido, entre per√≠odos de lazer e de aprendizagem de uma profiss√£o. Imagens de animais da quinta, vacas, cavalos, burros, porcos e retratos de um rapaz a jogar futebol, de outro a estudar empenhadamente cruzam-se com trabalhos de carpintaria e de serralharia, uns mais l√ļdicos, outros mais funcionais. Um v√≠deo documenta as visitas realizadas pela artista ao edif√≠cio, tornando vis√≠veis os espa√ßos agora abandonados, a cela solit√°ria, as estruturas dos quartos coletivos, tamb√©m presentes na exposi√ß√£o, as mensagens deixadas na paredes e os graf√≠tis, escritos pelos internos, ou por ocupantes mais recentes. S√£o testemunhos concretos n√£o s√≥ daquilo que foi e daquilo que agora √© o Convento de Santa Clara, mas tamb√©m daquilo que a cidade, e a comunidade que nela habita, imagina que este espa√ßo seja. √Č simultaneamente o convento e uma proje√ß√£o do convento, realidade e mito, trazida para o espa√ßo da galeria e devolvida ao espetador.


Epílogo

Mais do que se interessar simplesmente pelo passado, explorando arquivos, recolhendo artefactos ou entrevistando pessoas e gravando os seus testemunhos, Carla Filipe procura gerar um olhar sobre o agora, sobre o momento em que vivemos, tentando descortinar que elementos nos colocaram em determinado momento histórico e como podemos agir enquanto sujeitos críticos. São tanto os pequenos episódios como as grandes narrativas históricas que lhe permitem pensar e afirmar o presente, inscrevendo-o numa dialética em que realidade e construção (ficção? encenação? mito?) são questionados e as grandes narrativas, tais como as de progresso, modernização ou emancipação, por exemplo, são reequacionada. Como o título da exposição sugere, a partir de uma mensagem escrita por alguém numa porta do convento transformado em casa de detenção transformado em reformatório transformado em escola profissional transformado em ruína, a porta não deve ser fechada, porque nós voltamos todos os dias, que é uma outra forma de dizer que, independentemente daquilo que aconteça, ou possa vir a acontecer, nós estaremos sempre aqui. Seremos sempre nós os construtores dos edifícios e nunca aquilo que os edifícios constroem.

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